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quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Conto - A fada do amor - Cristiane Caracas


Vivia em um recanto quase esquecido uma serena e jovem pastora que conduzia o seu rebanho de ovelhas com paz, rastro de sua caminhada.
Havia naquela moça de andar calmo, uma timidez recatada e uma certa cumplicidade com a natureza, visível a qualquer um. Cabelos longos e negros, olhar distante, meiguice percebida ainda que escondida detrás de tanta reserva. Nathalia era o nome dela e delicada podia ser seu sobrenome.
Pois bem. Aquela doce pastorinha guardava um segredo. Em noites de luz cheia, Nathalia metamorfoseava-se em uma linda fada e no mundo dos seres encantados ela era Naty: a fada do amor. Os cabelos tornavam-se ainda mais longos e negros, suas costas ganhavam delineadas asas azuis e seus olhos pareciam duas enormes turmalinas porque o olhar do amor é assim: tudo vê, mas só enxerga o que quer.
Certa noite de luar, como de costume, Naty passeava entre as colinas sempre em busca de corações apaixonados, ouviu um sussurro que vinha do firmamento. De mansinho, aproximou-se do som que toava ao mesmo tempo com angústia e alívio, difícil mesmo descrever aquele paradoxo.
Deparou-se com a seguinte cena: uma bela mulher, na beira do abismo do desespero, chorava compulsivamente a perda de um amor, suas lágrimas eram tantas que o rio da desilusão, esculpido em uma fenda do abismo, transbordava sangrando as dores daquela mulher. A fada paralisou diante de tanto desespero. Não estava acostumada com tudo aquilo, afinal era a fada do amor, lidava com sorrisos, paixões, corações acelerados, enfim, com o que há de melhor na humanidade.

Ouviu passos na escuridão, apressadamente, com um certo medo é bem verdade, virou-se para deparar-se com um duende. Ainda trêmula, indagou dele quem era e o que fazia ali que respondeu sem qualquer emoção que se chamava desprezo e que era a causa do desespero da mulher.
Compadecida pela dor da humana interpelou se poderia fazer algo em favor. O duende, em desdenho, mostrou um espelho de duas faces: em uma delas refletia-se o amor, na outra a rejeição.  Você não passa de uma de minhas faces, refutou o duende, não se julgue tão importante, no fundo somos um só.
De início Naty nada compreendeu daquela conversa esquisita, mas se preocupava com o destino da mulher na beira do abismo. O duende, percebendo a inquietação, cuidou em desestabilizar a fada.
Você nada pode fazer, minha doce e inocente fada. Cabe a ela, e somente a ela, desapegar-se de mim. Não esqueça que o que nos faz sofrer não é o amor e sim a multifacetária dor da rejeição, a qual nos apegamos como a uma ponte para a desesperança.
Tomada de coragem, resolveu propor ao duende um acordo: se somos faces distintas de nós mesmos, abro mão de você e já pode ir embora O duende se riu em gargalhadas e logo revidou:  isso não depende de você, depende dela. Não se apercebe que só a ela cabe alimentar o amor ou o ódio? Não atinas que no caso estou muito mais forte do que tu, frágil amor?
O amor ajoelhou-se diante da mulher sussurrou em seu ouvido mudo de ódio como um sopro de esperança embalada pela humildade, porque não havia muito tempo. O abismo se incorporava de forma tal à mulher que já não se podia perceber onde um começava e onde o outro terminava e era a partir daí que mudava de nome e atendia por depressão.
Não te reconheces, mulher? Não sabes do teu valor? Não será você mais importante do que qualquer outro que idealizas? És preciosa aos olhos do amor maior, o Deus incondicional. Não te deixes aprisionar pelo duende, sejas forte como o bambu que enverga mas não quebra porque conhece a sua maior virtude: a fortaleza.
As águas do rio da desilusão baixaram, o coração sossegou o abismo do desespero já não parecia tão tenebroso, fez- se luz onde dantes era treva. A mulher levantou-se, sacudiu a poeira, trançou os cabelos como em um sinal de recomeço e simplesmente saiu, deixando o desalento a cargo do duende. Compreendeu que como tranças que prendem os cabelos, é preciso aprender a trançar as tristezas e dores do coração de modo a não permitir que invadam a alma.
Quanta à Naty, a fada, enfrentou talvez o seu maior desafio porque lutou com uma de suas faces até então desconhecida. Deixou aquele lugar, não estava sozinha, seguia agora de mãos dadas com o amor próprio, outro rosto seu, outrora esquecido, agora liberto pelo maior duelo do coração travado que foi entre o amor e a rejeição.
Cristiane Caracas
14/10/2015

domingo, 19 de julho de 2015

Conto - Elise e o pote de ouro - Cristiane Caracas


As tardes de domingo na casa de Elise eram sempre animadas e alegres. Elise, uma menina pequena e vaidosa, mais parecia um daqueles personagens de contos de fada, uma princesa mesmo por assim dizer. Naquelas tardes a família inteira se reunia, sons de risos, cantorias e algazarras faziam parte da rotina.
A menina percebeu, entretanto, que sua avó não mais participava da alegria dominical, sempre com olhar distante, estava presente de corpo, mas o espírito parecia vagar em um lugar que só ela conhecia.
A criança curiosa de mansinho se chegou e iniciou uma conversa com a anciã.
_ Vó, por que você não conversa e nem acha mais graça nos nossos domingos em família?
A avó, ainda alheia, mas em um instante de lucidez, respondeu:
_ E quem foi que disse que não acho graça dos domingos? É que um dia, minha neta, o número de domingos que carregamos nos ombros se torna por demais pesados e é aí que começamos a desaparecer, não existimos como éramos, viramos rabiscos, numa espécie de rascunhos do que fomos. Deixamos de ser futuro, nos tornamos um presente incômodo e a partir daí é preciso lentes de amor para enxergar o pretérito invisível. Como um fardo pesado, uma mobília velha ou um relógio cuja hora marcada não importa mais, somos imperceptíveis, borrões desgastados pelo tempo e, portanto, para alguns, sem nenhuma serventia, mas uma coisa nos difere e nos faz seguir: a vida já não tem mais tempo para nos dirigir e com o roteiro pronto e quase acabado, nos tornamos meros espectadores de nós mesmos.

Caiu uma fina chuva lá fora e da janela logo se viu resplandecer no céu um arco-íris. Elise, em um atino, compreendeu o que sua avó dizia. Não desistir das pessoas que amamos é como o desafio de buscar o pote de ouro no fim do arco-íris. Só alcança quem tiver a coragem de caminhar por suas linhas e impregnar-se com cores incertas. Haverá momentos que encontraremos o azul e o amarelo, no entanto, o cinza e o preto terão que ser confrontados com a mesma ousadia de um duelo que o tempo recompensará.
O tal pote na verdade só podia ser preenchido com gotas de amor, mais valiosas que o ouro do cântaro. De certo, o importante aos olhos não era o cântaro, mas os sentimentos que carregamos nos nossos caminhos coloridos que se transformam em pingos de ternura, capazes de rompem o invisível e nos fazer melhor.
Naquele momento Elise reencontrou o olhar vago de sua avó e um sorriso discreto em seus lábios, atinou para qual seria o lugar remoto, onde vez por outra sua avó parceria se achar. Certamente era lá no fim do arco-íris, prêmio da perseverança. Ela havia alcançado seu pote mágico e é por isso que o intangível não mais tinha importância, havia vencido as curvas do tempo com seus infinitos becos, vielas dúbias, ermos atalhos de cores vacilantes na imprecisa aquarela da vida, quadro da existência, inevitavelmente pincelado com as tintas do destino.
Cristiane Caracas
19/7/2015

domingo, 28 de junho de 2015

Conto - Sorrisos Mágicos - Cristiane Caracas

Franzina, cabelos castanhos ondulados e brilhantes era Catarina. Tinha recebido na escola o apelido de pé de vento já que insuperável na corrida. Catarina era aquilo: travessa, inquieta e sapeca.
Certo dia, sua avó chegou à casa com uma novidade, iam ao circo. A menina logo tratou de colocar seu vestido preferido: aquele com babados e laço azul de fita. E assim foram, Catarina e a avó para o maior espetáculo do mundo, era o que dizia o letreiro do Circo.
Tudo ia de boa, as duas se divertiam quando chegou a atração dos palhaços e um deles, em especial, chamou a atenção da menina, era o triste Pierrô. Catarina intrigou-se com aquela dualidade de alegria no ornamento e tristeza na face. Indagou da sua avó como poderia um palhaço ser triste?  Afinal nem combinava o colorido com as lágrimas.

A avó do alto de sua experiência respondeu: “É que, de quando em quando, minha neta, somos como os palhaços deste circo, por vezes alegres, por vezes tristes e sempre que a melancolia invade a alma nos travestimos de Pierrô em um disfarce do desalento”. Catarina não compreendeu bem as palavras da avó, atinou, porém, que por trás das máscaras tristes ou alegres sempre existe o homem/palhaço, desnudo porque aprendeu que é preciso sair de si para reencontrar-se no avesso do eu.

Na saída do circo, entretanto, a criança, ligeira com seus pés de vento, terminou por esbarrar no Pierrô triste e lá de foram os dois ao chão. Catarina sorriu para o palhaço que agora se desmanchava em risos altos e soltos. Aquela imagem atentou a menina sapeca para o poder mágico dos sorrisos, pois não importava o tamanho ou aparência da tristeza, sempre haveria um remédio eficaz para aquela dor interior de que sua avó falava: são os sorrisos mágicos que não podem ser olvidados e devem ser ministrados em doses diárias, perenes e abstratas. Catarina se foi, mas deixou no circo uma lição: o maior espetáculo da vida é feito por cada um quando não desistimos de rir de nós mesmos com os tais sorrisos mágicos, ainda que os fatos e as circunstâncias insistam em nos trajar de pierrôs.
Cristiane Caracas
28/6/2015

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Conto - Lara, a menina de olhos de luz - Cristiane Caracas


Doce, meiga e com sorriso largo era Lara, a menina de olhos grandes curiosos. Nem bem chegou da escola encontrou, em cima da cama, um livro fininho, presente de seu pai, onde era narrada a história de um príncipe de cabelos loiros como espigas de milho e uma rosa singular e geniosa que moravam em um minúsculo planeta, lá juntinho das estrelas.
Desde aquele dia, Lara não parava de pensar na possibilidade de conhecer o céu, as constelações, a via láctea, a Lua e o Sol, enfim, tudo que habita o cosmo.
Sendo filha única, identificou-se com o principezinho em sua solidão e na busca por um amigo, imaginou que poderia juntar-se ao menino e a rosa sendo felizes no diminuto astro, afinal não precisava de muito, apenas de um amigo. Esse era, pois, o seu desejo secreto.
Dedicava horas e horas de suas tardes deitada na relva contemplando, com seus olhos grandes, todo o céu estrelado. Tinha preferência pelas noites de verão quando os pontos de luzes pareciam maiores e mais brilhantes.
Passaram os anos e a aspiração de viver perto das estrelas desapareceu por entre as tarefas e compromissos da juventude que sufocam os desejos infantis. Lara já não era mais criança, tinha consciência do impossível. Numa linda manhã ensolarada de verão, entretanto, passeava tranquilamente na praia e esbarrou, trazida pelas ondas de espumas esbranquiçadas, com uma estrela do mar. Apressadamente, com mãos trêmulas, apossou-se daquela estrela que a fez lembrar o velado desejo infantil.

Recordou-se do principezinho e da rosa e atinou que o impossível é uma coisa ou lugar que ninguém conhece e nunca foi lá e assim, não se sabendo a coisa ou lugar, nem onde, quando e como encontrá-lo, ele pode ser qualquer coisa ou coisa alguma e até ser um lugar comum. Aquela estrela era a prova de que o inverossímil acontece quando o acaso se distraí e abre as portas para a utopia. É num desses momentos de descuido que as estrelas aproveitam para visitar outro lugar, aquele que alguém um dia chamou de impossível.
Podia sim viver no impossível, podia sim ser amiga do principezinho e da rosa, afinal o irreal só existe para quem não acredita na força do desejo, capaz até de precipitar estrelas no mar ou permitir que a criança que habita em nós dite as regras de nossos destinos.
E daquele dia em diante, Lara percebeu um certo brilho que reluzia de seus olhos sempre que contemplava o firmamento. Lara não pode ir às estrelas, mas as estrelas habitariam nela para sempre em forma de luz no espelho da alma, sinal de que nada é impossível. E foi assim que Lara passou a ser a menina dos olhos de luz, onde as estrelas, aproveitando um cochilo do acaso, vieram fazer morada.
Cristiane Caracas
3/6/2015

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Fábula - Portas Abertas - Cristiane Caracas


Vivia em um sobrado antigo da Rua 26, Leo, um gato preto, charmoso e elegante. Aquele sobrado tinha uma peculiaridade: possuía em seu interior muitas portas que davam a diferentes cômodos.
Além dos atributos físicos, Leo tinha algo que encantava a todos, especialmente às gatas da redondeza. Já não era tão jovem, é verdade, mas isso não era motivo para diminuir o poder de sedução de Leo, aliás, talvez até aumentasse, já que a experiência é mais uma das facetas da conquista.
Os outros gatos, sabedores da fama de Leo, nutriam por ele um despeito aparente, diziam que não passava de um conquistador barato e que tudo se devia a um certo “it” que ele tinha. Leo não se incomodava, era livre.
Certo dia Leo conheceu uma gata sensível, amorosa que, como não podia deixar de ser, caiu de amores por ele. Por um tempo Leo parecia feliz, completo, enfim os dias de conquistador pareciam ter terminado.
Os anos se passaram e Leo por mais que evitasse o tal “it”, vez por outra, o atormentava a ponto de colocá-lo em questionamentos.
É que a natureza dos seres, por mais que se pretenda sufocar, uma hora ou outra ressurge do seu âmago e de uma forma avassaladora, não importando o desejo, a vontade ou a consciência daquilo que se quer ser, mas determinando e impondo aquilo que se é.
Bateu um vento forte no casarão e Leo percebeu que por entre as fendas das portas, porque não totalmente cerradas, surgiam brechas por onde passavam fragmentos de sentimentos e meias verdades que, como aquele vento, não tinha compromisso com qualquer direção.

Compreendeu então que o motivo e a razão de tudo aquilo eras as portas do casarão que ele teimava em não fechar, o que permitia a entrada daquelas emoções. Parou para ouvir o vento que sussurrou ao seu ouvido: É preciso cerrar as portas, Léo, fechar as janelas, conferir os cadeados e tudo isso só pode ser feito com uma única chave: a chave do amor verdadeiro.
Cristiane Caracas
10/4/2015

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Apólogo - A flauta e o violoncelo - Cristiane Caracas


Uma velha senhora solitária tinha por vizinho o imponente conservatório da pequena cidade onde morava.
Tinha vivido um grande amor na juventude que se foi juntamente com a guerra que o levou sem que ao menos pudesse dizer adeus. Essa era a sua bela e triste história que como todo amor, como diz o poeta, só é grande se for triste.
Guardava em um pesado baú de angelim todas as cartas que foram trocadas com seu amado, relíquias da paixão. Quantas declarações de amor e esperança de um reencontro próximo que nunca aconteceu. Sentimentos estampados em um papel que se amarelou, marcas do tempo, o mesmo tempo que enrugou a face da menina-moça, mas que não foi capaz de apagar da lembrança os sentimentos que lhes foram arrancados pela heroica covadia daqueles que promovem a guerra e esquecem que esta deixa rastros de corações dilacerados, herança do combate.
Vivia naquele pequeno sobrado cuja janela do quarto dava defronte ao salão principal do conservatório. Todas as noites costumava sentar-se ao lado da janela e, contemplando o céu, relia em voz alta as cartas já decoradas que ecoavam como uma toada de paz.
E foi assim que como por um milagre aqueles instrumentos musicais do salão, adormecidos pela quietude da noite, se compadeceram daquela menina/idosa e compuseram, com a letra das cartas, uma linda melodia de amor.
Todas as noites era aquilo: ela sentada ao lado da janela ouvia a sua história contada em um doce e suave canto e não se importava no quão insensato era tudo aquilo, devaneios do coração, notas musicais embriagadas de sentimentos que trazia o outrora ao presente.
Admitiu a si mesmo seus delírios e tinha medo de confessar, a quem quer que fosse, os rituais musicais ocorridos todas as noites defronte de sua janela.
Percebeu um certo enamoramento da flauta pelo violoncelo, ela pequena, frágil, ele, em contraste, enorme e forte.

Viu naqueles instrumentos sua historia de amor se eternizar em notas musicais. Amiúde, depois que os outros instrumentos musicais emudeciam, ficavam apenas os dois pretendendo que aquela magia nunca terminasse.
E ouvindo a harmonia, compreendeu que seu amado, assim, como o cello fora forte e destemido, mas não prescindia das cordas e do arco, tinha, pois, suas fraquezas e que, como os instrumentos, as pessoas também são desiguais não se podendo tirar de todos o mesmo som. A união do distinto é que forma a sinfonia.
Ela era a flauta, sobrevivia sozinha, solista por excelência! E foi aí que atinou para a perfeição dos desígnios de Deus. Ela sobreviveu aos agouros e desventuras de um amor perdido, ele não suportaria.
Ela-flauta, embora miúda, magra e aparentemente frágil tinha potência. Flauta-ela era forte e firme na essência e essa fortaleza a fez suportar a perda, a frustração e o vazio. O mesmo vazio que o cello causava quando se calava e deixava a flauta sozinha, tendo que arcar, por conta própria singular, com toda a responsabilidade pelo rompimento do silêncio.
E mesmo depois que ela se foi, durante algumas noites silentes, os vizinhos do conservatório podiam ouvir o compasso da flauta e do cello. Conta a lenda que foi desse apaixonamento que nasceu o violino.
Compreendeu o quão forte nos torna o abandono e a solidão, mas que, assim como aqueles instrumentos musicais, a cantiga da vida não para e cabe a nós dar o tom dessa melodia que por vezes é triste, mas pode ser alegre. Que independente do ritmo, do destino e das circunstâncias, só depende de nós, na orquestra da vida, aprender a dançar conforme a música.
Cristiane Caracas
14/01/2015

domingo, 23 de novembro de 2014

Apólogo - A vela e o candeeiro - Cristiane Caracas


Um velho candeeiro jogado em um sótão de uma casa sentia-se inútil desde a chegada da luz elétrica. De fato há muito fora esquecido ali, junto com “tralhas” que não servem mais. Aquele amontoado de objetos, hoje imprestáveis, ontem pulsantes, ficavam ali empoeirados e aprisionados no passado glorioso
O velho candeeiro, vez por outra, era dominado pelas lembranças de outrora.
_ Belos tempos! Eu era a luz do mundo, importantíssimo porque sem mim as noites eram escuras e sombrias.Gabava-se, assim, aos outros objetos que acostumados àquelas lamurias já não se importavam com as repetidas “histórias de candeeiro”.
Certa feita chegou ao lugar, dentro de um caixote chamativo, uma vela grande, daquelas que enfeitam as mesas nas noites de natal. Sempre que chegava algo novo era aquele rebuliço.
_ Já viram a novata? Cochichavam um ao outro.
_ Certamente que sim, respondiam em sussurros.
O candeeiro encabulado iniciou uma prosa com a vela.
_ Bom dia!
_ Dias, respondeu a vela.
_ Por que te trouxeram pra cá? Parece-me uma vela tão bonita.
_ Não sabes que aqui é o porão dos esquecidos?
_ Porão dos esquecidos? replicou a vela.
_ Pensei que fosse um sótão.
_ Ah! Ah! Ah! Riu-se em deboche o candeeiro.
_ Logo se vê que és jovem demais para perceber o que o maldito tempo nos faz, já que especialidade no esquecimento.

A vela se assustou com o rancor do candeeiro e retrucou:
_ Não te pareces que o esquecimento por vezes, ao contrário de maldito, é o que nos torna capazes de prosseguir?
_ Não te apercebes quão maravilhoso é esquecer o que nos fez sofrer?
_ Talvez a minha juventude é que me faça enxergar com olhos de esperança. É que não acho que aqui seja o porão do esquecimento, talvez o sótão da reflexão.
_ É que certas vezes candeeiro é preciso parar e perceber que há o momento certo para tudo. Hora de produzir e hora de só contemplar, há hora de perdoar o outro e hora de perdoar a si mesmo, assim como há hora de simplesmente esperar pelo tempo das coisas.
_ Certamente quando chegado o natal, serei levada daqui para enfeitar lá fora e, em razão do meu tempo de reflexão, serei capaz de iluminar consciente do que represento, já que saí das sombras. Aprender a conviver com a nossa escuridão e compreender o momento certo de rompê-la é ser verdadeiramente luz e entender que ascender a chama que ilumina os corações depende do tempo que como especialista no esquecimento, também o é das cicatrizes das dores da vida.
O candeeiro compreendeu que sua forma obtusa de olhar a vida é que apagou sua chama porque há muito esqueceu de que só se precisa de luz onde há escuridão, razão de sua existência. Quiçá um dia, ele também não iria adornar um antiquário qualquer, já que agora se sentia relíquia. De certo tudo depende do olhar jovem da esperança...
Cristiane Caracas
23/11/2014

domingo, 19 de outubro de 2014

Fábula - Promessas quebradas - Cristiane Caracas


Vivia no meio da rua, sem endereço e sem pouso certo, um cão que de tão magro e franzino era conhecido entre a cachorrada como Sibite.
Sibite podia se definir como a própria liberdade encarnada em um cão. Não tinha casa, não tinha laços com ninguém, era dono de si, sua vontade dirigia seus atos. Era assim um cosmopolita.
Certa feita, Sibite dormia tranquilo embaixo do banco de uma praça, uma praça qualquer, dessas que ele elegia como seu lar provisório, quando se deixou prender a atenção para um homem que sentado no banco da praça chorava como criança.
Sibite se comoveu com a dor daquele homem. Não sabia do que se tratava, aliás, nem tinha a pretensão para tanto, mas, por um instante, pode sentir a dor dele que de tão grande fez Sibite querer dividi-la, na esperança de que compartilhada fosse aliviada como um sopro gélido em feridas escaldantes.
E nesse transe de compartilhamento de sentimentos, Sibite conheceu a dor do homem e ela tinha nome:  Chamava-se decepção.

Quis conhece-la melhor, sua face era desfigurada, teve medo. Sibite fez da fraqueza força e a enfrentou. Percebeu que se mostrava de diferentes maneiras, a daquele homem era imensa, com raízes na honra e galhos no ego.
Estando frente a frente quis saber dela mesma a sua razão e ela logo respondeu: Foram promessas quebradas.  Pode sentir que a decepção, embora sentimento único, se apresenta com duas faces que oscilam entre o ingênuo inacreditável do “antes” e a cruel constatação da realidade dos fatos do “depois”.
Desnorteando a razão, revela-se um fardo pesado, difícil de carregar já que seu caminhar é sem chão, sem rumo, apresentando muitas estradas, mas nenhuma direção. E porque sem chão, para continuar, ao ser decepcionado não resta outra alternativa a não ser do peito dilacerado criar asas e aprender a voar.

Sibite silenciou porque compreendeu que por mais que se compadecesse daquele homem, somente a ele cabia se reinventar e, nesse novo ser, encontrar novas razões para viver. Quem sabe o choro do homem - criança não fosse o início do aprendizado de que somente se despojando de si, se poderá encontrar o verdadeiro “eu”.
Cristiane Caracas
19/10/2014

sábado, 27 de setembro de 2014

Fábula - Rafa, o rato que queria ser um coelho - Cristiane Caracas


Alameda das Acácias, número 27. Esse era o endereço do esgoto onde morava Rafa. Um rato branco, tamanho gigante que de tão grande por vezes era chamado de Rafão.
O esgoto era seu mundo. Junto com os demais ratos passava horas a fio se divertindo nos locais mais fétidos e desprezíveis da cidade.
Certo dia, entretanto, arriscou dar uma olhadela, ainda que rápida, para o lado de fora do “seu esgoto”. Era assim que Rafa chamava aquele lugar porque se sentia parte dele. E foi assim que Rafa, por um canto de olho, viu um coelho branco no parque sendo acariciado por uma criança. Por um instante sentiu uma ponta de inveja do coelho e pensou:
_ Eu também poderia ser acariciado. Ora, me pareço com aquele coelho, sou branco, grande, poderia muito bem me passar por um deles, aposto que ninguém perceberia a diferença. Rafa queria mesmo era se sentir acariciado e amado como aquele coelho.
Voltou de mansinho para o esgoto e enquanto os outros ratos se divertiam, pensava em uma maneira de se igualar ao coelho.

_ Primeiro preciso de um banho para realçar meus pelos brancos, pensou, e depois os coelhos não andam sujos como os ratos. Para finalizar cairia bem uma boa água de colônia para tirar dele o cheiro do esgoto.
E foi assim que Rafa tomou um demorado banho e despejou quase o vidro inteiro da colônia francesa que Nina, uma rata metida a chique, tinha lhe dado no amigo secreto do natal passado.
Naquele domingo ensolarado, Rafa encheu-se de coragem, deixou seu mundo subterrâneo e foi ao encontro das crianças que estavam no parque.
E deu-se o ocorrido. Ao avistarem Rafa, foi aquela confusão: mulheres gritando e subindo nos bancos da praça com seus filhos no colo, os homens, mais que depressa, pegaram paus e pedras para expulsarem Rafa dali.
_ Que rato enorme, disse uma.
_ Que nojo, gritou outra.
Rafa, atônito, voltou rapidamente para o esgoto e ao adentrar encontrou André, um rato idoso, que de longe assistiu a tudo.
_ Por que, André? Por que me trataram assim? Eles não veem que estou limpo e cheiroso como o coelho? Até me pareço com um deles. André respirou fundo e respondeu:
_ Você, Rafa, por mais limpo e cheiroso jamais deixará de ser um rato e, por isso, para eles, você não vive no esgoto, é o esgoto que vive em você.
_ Por que você não me disse isso antes André? Teria evitado meus sofrimento, falou Rafa.
_ Porque de nada adiantaria, disse André. É que certas realidades para serem compreendidas precisam primeiro ser vividas e sentidas nas entranhas da própria alma.
Então Rafa voltou para a casa e quebrou seu vidro de água de colônia francesa porque compreendeu que não lhe tinha nenhuma serventia enquanto os sentimentos dos homens se deixassem dominar pelos rótulos do preconceito e não pela generosidade do coração.
Cristiane Caracas
27/09/2014

domingo, 31 de agosto de 2014

Fábula - A bromélia e o escaravelho - Cristiane Caracas


Em um restinho de mata atlântica e hospedeira em um ipê amarelo havia uma bromélia. Bia, a joaninha, dividia a bromélia, como habitat, com outros bichinhos tão miúdos quanto ela. Naquela bromélia viviam, além de Bia, Benjamin o gafanhoto cocho, Lígia, a centopeia estrábica e Patrício um escaravelho negro e lustrado que, por ter chegado primeiro, se intitulava o dono do lugar. Viviam em parcial harmonia. É que vez ou outra o escaravelho ralhava com os outros moradores e exigia que fizessem uma limpeza na bromélia, quase sempre depois das chuvas, já que as bromélias acumulam água dentro de si. E lá se iam todos, a contragosto, fazer a tal faxina.
Certa manhã, nem bem os raios de sol se espreguiçavam por entre as árvores, Patrício, aos gritos, acordava a todos para contemplar ao que chamou de maior espetáculo da terra: o florescer de “sua bromélia”. De fato, era um espetáculo! Uma flor vermelha, enorme, forte e delicada ao mesmo tempo e, embora uma, parecia um buquê, ante a sua florescência múltipla.
Bia, estática, fixava o olhar naquela flor exuberante e ficou feliz com a chegada da nova moradora do lugar. E era sempre assim, à tardinha, se reuniam em torno da flor, cuja beleza encantou a todos e teve o condão de suavizar até as resmunguisses de Patrício.
_ A beleza tem disso, dizia Benjamim, é capaz de enfeitiçar e amolecer até os corações mais duros.
É que Patrício, agora, parecia outro, não reclamava mais de ninguém, e, vez ou outra, era flagrado com um sorriso de canto de boca, daqueles que somente os apaixonados reconhecem e que não adianta perguntar a razão, porque nem eles sabem o motivo. Bia assistia a tudo, curiosa por aquele sentimento que embora não fosse seu, causava nela um despertar de possibilidades.

Benjamim, mais experiente, alertava ao amigo que a beleza não é tudo, já que efêmera e fugaz, que a importância dos sentimentos está na permanência, na resiliência e, sobretudo, na capacidade de aceitar que dias virão em que não mais existirá aquilo que encantou aos olhos e só ficará o que se permitiu que fosse impresso na alma de forma a nem o tempo, as rugas e as circunstâncias serem capazes de apagar.
E aconteceu o que era previsto, mas que ninguém ousava sequer cogitar: o tempo da flor não era o mesmo tempo do inseto e ela murchou, perdeu a graça, despedaçou-se de forma lenta, numa luta para permanecer naquele lugar que a acolheu e lhe mostrou o que era paixão, e ela se foi porque era chegado o tempo de ir.
Todos ficaram atônicos à cena e naquele momento tiveram consciência de suas impotências diante do destino. O escaravelho era só desespero. Benjamin, o gafanhoto, lamentava que o amigo tivesse que passar por aquilo que no fundo ele conhecia alhures.
Bia, a mais nova, em busca de consolar o amigo, o fez enxergar que embora a flor se tenha ido, a bromélia permanecia e permaneceria em seu coração para sempre, que era a bromélia que sempre esteve ali, silente, paciente e se fez, sem que ele percebesse e sem nada exigir em troca, abrigo e aconchego nos tempos difíceis, que o amor nos torna belo, mas a essência do ser é que permanece.
Certamente, chegado o tempo, outras flores viriam, mas a bromélia, essa sim, seria sempre a mesma e a razão de existir de todas as outras flores que dela brotassem.
Lígia, a centopeia, lembrou que antes mesmo da existência da flor, Patrício, sem perceber, já zelava pela sua bromélia quando exigia que todos a cuidassem no período de chuva. Que o amor é assim: prende-nos por conexões invisíveis e inconscientes e que o escaravelho era um felizardo em poder viver dentro daquela que ele amava. É que quando se ama é isso que se quer: confundir-se com o outro, entrar dentro dele, desvendar os seus mistérios e apagar seus medos.
Patrício compreendeu que já amava a bromélia antes mesmo da flor e que certos sentimentos ficam intactos dentro de nós. Que a bromélia se fez notar pela beleza, porque aos olhos, daquele que não quer ver, precisa-se do belo para enxergar, mas que depois da beleza e da paixão o que permanecer é o que verdadeiramente se pode chamar de amor.
Cristiane Caracas
31/08/2014

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Fábula - O Guardião da Luz - Cristiane Caracas


Gigantes amarelos eram aqueles girassóis do campo. Como o próprio nome sugere buscavam incansavelmente pelo Sol e, por isso, todos os dias se firmavam diante do astro rei e giravam em acrobacias num diurno balé fascinante.
Certa noite, entrementes, a Lua, com inveja do Sol e inconformada com o desprezo daquelas flores, acordou os girassóis e propôs a eles que lhe devotassem a mesma importância que devotavam ao Sol.
- Veja que confortável não ter que passar horas a se contorcer em busca de migalhas de raios de Sol? Ao invés de procurar o Sol, eu é que vos buscareis e, com meus raios prateados, iluminarei o dourado de vossas pétalas, propôs.
Os girassóis mais novos, de certa forma revoltados com o inquestionável destino de submissão ao Sol, resolveram acatar o aliciamento da Lua. De dia, em revide, ficavam fechados em copas e à noite se abriam aos primeiros raios de Luar, em uma total transgressão das leis naturais que regem os girassóis.
Tudo parecia correr muito bem até que, cumprindo a ordem das coisas, era chegada a Lua Nova e, com ela, a escuridão no firmamento.
Os girassóis, naquela noite, não conseguiram desabrochar, ao revés, murcharam ante a ausência de luminosidade. O Sol, como de costume, bem cedinho em sua aurora, resplandeceu sem se importar com a decepção dos girassóis que ingenuamente acreditaram na ilusão de um reflexo.

_ Pobres inocentes girassóis, não se deram conta de que só há um guardião da luz.
Só então aquelas flores compreenderam, como num clarão de lucidez, que nascemos predestinados à luz, mas os eclipses da vida podem nos levar a caminhos ermos, obscuros, ludibriados que somos por aparências e caprichos disfarçados em formas de desejos que nunca se realizam porque acaso conquistados deixam de ser desejos e se transmudam em um pretérito esvaziado pela posse daquilo que se quis.
Querer ser Luz é conhecer a silhueta de sua própria escuridão de forma a não mais temer a sombra e entender que a vida deve ser vivida como um balé de girassóis que não se pode deixar enganar por ilusões de cintilâncias que são criadas por nós mesmos ante o desconhecimento da nossa própria alma.
Cristiane Caracas
08/08/2014 

sábado, 19 de julho de 2014

Fábula - Preciosas Amizades - Cristiane Caracas


Em um telhado de uma casa de fazenda, daquelas que parece ter se perdido no tempo, esquecida, com ares de que ainda vive no passado, sem perceber que o presente é fato e o futuro bate às portas, viviam muitos pássaros, dentre eles uma rolinha caldo de feijão e um corrupião.
Viviam de boa, livres, sem grandes dificuldades de sobrevivência e, principalmente, sem as ameaças do homem, tudo era harmonia naquele lugar.
Pois bem! A rolinha tinha pelo corrupião uma enorme estima, sempre moraram pertinho, se ajudando, se respeitando, criaram assim um laço estreito de amizade bonito de se ver.
O corrupião era aquilo: bonito, elegante, de um preto brilhante e um vermelho fabuloso, um canto espetacular de agradar aos ouvidos mais exigentes. Já a rolinha não tinha a mesma sorte, era sem graça, marrom, seu canto era muitas vezes confundido com agouro. Tais diferenças, entretanto, nunca sequer foram notadas, eram o que eram e se gostavam de qualquer jeito.
Chegou o verão e com ele, inesperadamente e sem precedente, chegou também, àquele telhado, uma fêmea sabiá, linda, rara e preciosa como uma joia, foi assim que o corrupião a enxergou e de logo se encantou pela novata.
O corrupião, vendo aquela beleza toda, de pronto se animou. Foi se chegando, logo se apresentando, dando ares de dono do lugar.
_ Como vais, nunca a vi antes, de onde vens e o que buscas?
_ Costumas fazer esse interrogatório a todas, perguntou a sabiá.
_ Não, só com para as bonitas, respondeu, em tom simpático, o corrupião.
A sabiá, nada difícil, ficou logo prosa do pássaro e engataram um romance ali mesmo. A rolinha não gostou nada do que viu, mordendo-se de ciúmes do amigo, mas sem querer admitir, reclamava com todos do telhado aquele assanhamento dos dois.
_ Indecência asse namoro, mal se conhecem, nunca se viram, amor de verão. Não se conformava.
O fato é que o corrupião era só suspiros para a linda sabiá que não se fazia de rogada, sabia que causava ciúmes na rolinha e se derretia toda para o corrupião, só para provocar.
Os dias passaram, a rolinha foi definhando de tristeza, não conseguia lidar com a situação, sofria, mas compreendeu que nada podia fazer, a não ser esquecer tantos anos de estima que tinha devotado ao corrupião, afinal ele tinha feito uma escolha, cabia a ela respeitar, porque não se implora afeto, sempre ouviu isso de sua avó. Consciente resolveu partir, porque ali já não tinham paz, restaram a ela o profundo silêncio e uma solidão lancinante.
Estava decidida, não o procuraria mais. Encontrou no silenciar a paz esquecida e a melhor reposta. É que muitas vezes a nossa guerra interior só é dissipada pelo silêncio pessoal capaz de restabelecer a harmonia sufocada pelos pensamentos ensurdecedores.
Os dias passaram e o corrupião nem para lembrar-se da rolinha, levava os dias alegres ao lado da linda sabiá. Certa manhã, entretanto, por uma fenda do telhado apareceu uma cobra cascavel, estava faminta e disposta a devorar a primeira presa que encontrasse e deu de cara com a sabiá que dormia ao lado do corrupião, a cobra, com ares de psicopata, acordou a sabiá, sorrateiramente e disse com voz cavernosa:
_Preparada para morrer mocinha? 
_ A sabiá deu um sobressalto e, diante do seu destino inevitável, tentou entrar em um acordo com a cobra.
_ Estou sim Dona Cobra, mas acho que Vossa Senhoria devia pensar melhor no assunto. É que estou por demais magrinha, não vês? Só pena e osso. Padeço de dores forte no peito, desconfio de uma tuberculose. Fosse a Senhora se assegurava de comer algo mais saudável e robusto, quem sabe o corrupião aqui, é forte, suculento e tá no ponto não acha?
_ Tuberculose é? E isso pega? Perguntou a cobra,
_ Ah, claro! Uma bactéria poderosíssima capaz de matar em poucas horas.
_ A cobra, que não tinha nada a perder, resolveu não arriscar e partiu para dar o bote no inocente corrupião que ainda dormia sonhando com a sua sabiá.

Àquela altura a rolinha vinha chegando, havia esquecido um bebedouro de estimação que sua avó lhe tinha dado e resolveu buscá-lo exatamente naquela hora. Percebeu a cena da cobra pronta para dar o bote no corrupião e partiu para cima da cobra, sem se dar conta que ela era pelo menos cinco vezes o seu tamanho e que não tinha meios de defesa contra a peçonhenta.
E deu-se o acontecido, foi aquela zuada, o corrupião acordou assustado, mas a tempo de ver sua amiga rolinha partir para o sacrifício para defendê-lo. A cobra fez a rolinha em pedaços, ela, porém, foi guerreira, bicou cabeça da cobra em tantos lugares que a fez desistir do desiderato, indo-se embora com uma terrível cefaleia e prometendo voltar para se vingar da rolinha atrevida.
O corrupião, vendo a amiga destroçada, correu em seu socorro. A sabiá, cara de pau, sabedora de que viria a ser desmascarada, cuidou em fugir rapidamente dali para nunca mais voltar.
A rolinha de certa forma se recuperou, mas o duelo lhe deixou sequelas, uma das asas ficou irreparável e ela não mais podia voar, ficou presa ao telhando. O corrupião aprendeu com a rolinha o que se é capaz de enfrentar por uma amizade verdadeira, cuidou dela para sempre, porque compreendeu que os puros sentimentos, estes sim, são como joias raras precisam ser lapidados, cuidados e assumidos, que a preciosidade da joia não está na sua beleza ou raridade, mas na capacidade que ela tem de nos fazer sentir importantes pelo só fato de tê-las conosco. Que não vale a pena se iludir com falsos adornos porque no mais das vezes seu brilho esconde uma reles bijuteria.
Cristiane Caracas
19/07/2014

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Fábula - O Jatobá e o Machado - Cristiane Caracas


Avencas, samambaias e limos adormecidos na penumbra sufocada pela umidade não deixavam dúvidas de que a floresta, embora silente, pulsava. Eram dias quentes somente amenizados pelas generosas gotas de orvalho da manhã. Um jatobá centenário, gigantesco e imponente, era uma das árvores daquela floresta tropical.
Não se ouvia muitas coisas por aquelas bandas.  O silêncio só era rompido, vez ou outra, pelos sons da floresta que se rendia quando a majestade, o sabiá, presenteava a natureza com o seu canto, cuja melodia toca a alma sempre que o ouvido, por um capricho, se disfarça em coração.
Numa manhã de sol que teimava a todo custo romper as copas das árvores e se mostrar, chegou ali um lenhador. Trazia nas mãos o machado. O homem por um instante experimentou a paz daquele lugar que teve o condão de aquietar sua mente em guerra, em uma dicotomia delirante. Sossegou sua confusão e o homem integrou-se como uma parte do todo. Ele ali ficou por algum tempo contemplando a floresta, mas a humanidade, cuja resistência se tinha abalado por tamanha paz, gritou ao silêncio para chamar o homem à consciência do seu não interior. Era hora de trabalhar e, sem mais delongas, pôs em punho o seu machado, escolheu, como quem escolhe um grande amor, aquele jatobá centenário.
O jatobá, embora sabedor do seu destino, surpreendentemente, não se balou, nada fez, nenhum esboço de medo ou terror atingiu a velha árvore. O machado pronto para desferir o primeiro golpe na madeira, em atitude desdenhosa, perguntou à árvore.

_ Não percebes o que há vir?
O sábio jatobá responde sem qualquer preocupação:
_ Do que falas machado? Por acaso, imaginas, tu, que sabes o que há de vir daqui a um segundo?
O machado riu-se do que pensou ser inocência da árvore.
_ Admitira-me que tu sendo tão velho não perceba o que represento. Sou o machado, capaz de ferir de morte qualquer madeira que atravesse meu caminho e logo advirto: não sou piedoso e pouco me importo com teu destino se serás um móvel que adornará um lugar qualquer ou uma reles lenha que só serve para ser queimada.
O velho e sábio Jatobá respondeu passivamente:
_ Não te ocorres que ao tentar me ferir possa tu ser o ferido?
_ O machado gargalhou ante a audácia da árvore.
_ Sou de ferro, nada me fere, estúpido jatobá.
Naquele momento o lenhador empunhou o machado e, ao se dar conta de que se tratava de uma madeira de lei, desistiu do seu intento porque sabia que na luta entre o seu machado e aquela árvore de difícil corte, seu machado, embora de ferro, não tinha a menor chance, pois também era feito de madeira, porém, não tão nobre e certamente se quebraria ao primeiro golpe no Jatobá.
O machado compreendeu que aceitar com resiliência aquilo que não pode ser mudado é que nos torna fortes. Que certas vezes é preciso recuar ante as circunstâncias adversas e esperar que o universo conspire a nosso favor.
Naquele momento a majestade, o sabiá, irrompeu o sagrado silêncio da floresta e com seu canto lembrou ao homem, ao jatobá e ao machado, que a totalidade nunca é igual à soma das partes e que somos um todo de fortaleza e fragilidades que devem ser respeitadas e nunca esquecidas porque como diz o velho ditado: “o risco que corre o pau, corre o machado”.
Cristiane Caracas
27/06/2014

sábado, 31 de maio de 2014

Fábula - A Sombra da Cerejeira - Cristiane Caracas


Frondosa e com galhos longilíneos uma jovem cerejeira compunha a paisagem de um parque da cidade. Naqueles dias de outono ninguém prestava muita atenção a ela, passando-se por uma árvore qualquer, dentre tantas outras do lugar. É bem verdade que produzia, com sua copa, uma enorme sombra, mas esse detalhe também era despercebido aos olhos de todos, não era importante.
Pois bem! Foi nesse cenário de pouco interesse que uma cotovia, logo cedinho, pousou nos galhos da cerejeira e começou a cantar seu canto de alvorada, saudando o Sol que acabava de raiar. A árvore não gostou nem um pouco daquela intrusa que se assenhorou de seus galhos e, por isso, tratou logo de reclamar.
_Quem pensa que és? Não te dei licença para pousares em mim e muito menos usufruir de meus galhos!
A cotovia, não acostumada com tanta grosseria, foi logo se desculpando:
_ Me perdoe, Dona Cerejeira, não sabia que te importunavas, ao contrário, pensei que estivesses gostando já que com meu canto ofereço o que há de mais perfeito e puro em mim. É que costumo escolher a dedo a árvore para a qual dedicarei meu canto e tu me parecias tão linda! Merecedora do meu melhor.
A cerejeira encabulou-se com a delicadeza da cotovia e replicou:
_ Eu, linda? De onde tiras tal tolice, sou uma árvore qualquer no meio de tantas outras, sem nada especial, não vês?

A cotovia insistiu:
_ De certo não consegues te enxergar como és porque não conheces a ti mesmo. Buscas dentro de ti a tua essência e verás o quão és bela. Vou-me indo agora, não quero mais incomodar-te.
A cerejeira, arrependendo-se de sua arrogância inicial disse timidamente, quase querendo não ser ouvida: Podes voltar e declamar tuas poesias em canto, quem sabe um dia não aprendo a ver-me da forma que me enxergastes e não apenas a minha sombra que por vezes me sufoca? A cotovia respondeu: Não cabe a mim desnudar-te, essa tarefe pertence somente a ti, é personalíssima, enquanto não libertares a tua consciência para os segredos da alma ninguém será capaz de te mostrar a luz, razão da tua sombra. Busca tuas raízes, descortina os esconderijos, desvenda teus cativeiros e saberás quem de fato és.
A cotovia foi-se e deixou a cerejeira reflexiva acerca daquela prosa esquisita e ao mesmo tempo perturbadora.
Passados alguns dias, com a chegada do verão, pousou na cerejeira um bando de pássaros migratórios, uma centena deles, sem pedir licença invadiu a árvore em ensurdecedores grunhidos que mais pareciam gritos de terror, puseram–se a agitar seus galhos e muitos ali deixaram rastros fétidos em uma imundície jamais experimentada antes pela cerejeira. Depois se foram sem qualquer interesse na árvore que lhes dera abrigo contra os raios do Sol.
A cerejeira nada fez, portou-se de forma passiva, permitindo tamanho abuso e desrespeito, calou-se de forma vil e foi aí que se lembrou da cotovia. A cotovia tinha razão, ela me confiou o seu melhor e eu me ofendi com sua prenda, mas, ao revés, com os pássaros forasteiros permiti que deixassem seus excretos porque projetei a porção pior, somos, assim, espelhos do nosso “eu” interior ora se fazendo belos, ora se fazendo caricaturas de nós mesmos.
Chegada a primavera a cotovia regressou e encontrou a cerejeira revestida em flor, num verdadeiro espetáculo da natureza. Era aquela linda árvore que a cotovia havia avistado porque a contemplou com lentes de amor, renascida e destacada de qualquer outra do lugar, reflexo do seu âmago, agora liberto da sombra e pronto para, assim como no canto de alvorada da cotovia que é prenúncio de um novo dia, acolher a aurora da sua vida.
Cristiane Caracas
31/05/2014

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Fábula - A Coruja e o Rouxinol - Cristiane Caracas

Raquel era uma coruja esperta que como todas as corujas adorava a vida noturna. Era livre e costumava gabar-se de nunca se ter deixado apaixonar.
_ Paixão é coisa para os tolos, dizia.
_ Amar só se eu ficar louca, disparava em gargalhadas.
Em uma noite quente de verão, como outra qualquer sem nada diferente ou especial, Raquel foi a uma festa na mata vizinha, foram muitas aves noturnas, todas já conhecidas da coruja e sabedoras da fama de coração duro que ela tinha.

No meio do caminho, entretanto, pararam para uma prosa e foi aí que puderam ouvir um doce e suave canto que vinha da escuridão. Raquel jamais ouvira tão bela música e se emocionou com aquela melodia de tal forma que se sentia mexida, encantada por aquele som.
Quis saber de onde vinha, o porquê de todas as emoções que o canto lhe causava. As outras aves insistiram com Raquel a respeito da hora de partir, mas, a coruja, àquela altura pouco se importava com qualquer festa ou diversão, queria mesmo era encontrar aquele canto que como encanto encheu sua alma de luz, embora ela estivesse na mais absoluta escuridão.
E foi ao seu encontro de forma apressada, ansiosa, com medo da luz de sua alma se apagar. O canto ia se tornando cada vez mais próximo e Raquel pode ver ao longe, em cima de um arbusto de amoras, um pequeno rouxinol de calda vermelha que cantava para a escuridão em doces e suaves poesias, pretendendo esquecer sua solidão.
Raquel, descuidadamente, deixou-se apaixonar pelo canto do rouxinol de calda vermelha. Lembrou-se de suas palavras quanto aos tolos apaixonados e teve vergonha de seus sentimentos. Deu-se conta do estigma de feiura das corujas e aí teve medo. Um medo jamais experimentado dantes, medo de ser rejeitada, ridicularizada até.
_ O que diriam as outras aves de uma coruja feia se apaixonar por um lindo rouxinol? Ou pior, e essa ideia lhe era insuportável, aquele rouxinol rir dela e de seus sentimentos.
Recordou de quando falava que o amor somente lhe caberia quando estivesse insana. Indagou a si mesma se tudo não passava de um delírio, mas ao ouvi-lo novamente convenceu-se de que era amor.

Quis aproximar-se, recuou diante de sua covardia, pensou no que tinha a oferecer, teve consciência de sua insignificância. Não tinha atrativos físicos, muito menos um belo canto. Revoltou-se com sua própria condição, amaldiçoou o céu por tê–la feito coruja.
E todas as noites daquele verão vinha de mansinho, escondia-se entres os galhos de uma árvore qualquer e ficava horas ouvindo aquele lindo canto que lhe trazia paz, mas também era o causador de sua insônia. Os sentimentos se misturam assim para Raquel ora como luz, ora como trevas, era doce e ao mesmo tempo amargo, sofria, mas seus olhos grandes davam uma festa todas as vezes que ele chegava, seu coração se alegrava só de pensar que à noite iria poder ver e ouvir seu amado.
E foram várias noites em que a coruja silente amava sozinha aquele rouxinol. Nunca se fez perceber, jamais ousou encará-lo, não teve coragem de enfrentar seus medos e confiava que o tempo fosse lhe dar as respostas de que tanto precisava.
O que Raquel não sabia é que os rouxinóis, da mesma forma que chegam se vão, porque aves migratórias não se deixam aprisionar por lugar nenhum e, por isso, ele se foi sem dizer adeus. A ave não podia acreditar na partida de seu rouxinol que, embora nem desconfiasse, era a razão de sua existência.
Percebeu que até então não tinha vivido, apenas existido e que o amor, que iluminou à sua alma, é que ascende os corações, nos faz melhor e nos torna capaz de aceitar a ambiguidade dos seres, porque somos muitos quando amamos e não somos nada, além de fragmentos de existência, quando incapazes de amar.
Raquel compreendeu, em sua solidão, o quão tolos são os mudos apaixonados, quão insanos são os silentes amantes que confiam no tempo e esquecem que esse mesmo tempo tripudia daqueles que não têm a coragem de enfrentar suas próprias vozes e medos.
E até o último dia de sua vida Raquel, por se ter calado, teve que ouvir, nas noites escuras, não mais o lindo canto do seu amado rouxinol, mas o sussurro da solidão e o grito de dor da sua saudade chamando por ele.
Diz a lenda que nas noites de lua minguante, quando a escuridão vira dona do firmamento, todos os que amam em segredo, se ficarem em profundo silêncio, serão capazes de ouvir o lamento de Raquel que ecoa em um choro triste, por não poder voltar o tempo e dizer ao seu rouxinol tudo aquilo que ficou preso em sua garganta muda.

CRISTIANE CARACAS
09/05/2014