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domingo, 19 de outubro de 2014

Fábula - Promessas quebradas - Cristiane Caracas


Vivia no meio da rua, sem endereço e sem pouso certo, um cão que de tão magro e franzino era conhecido entre a cachorrada como Sibite.
Sibite podia se definir como a própria liberdade encarnada em um cão. Não tinha casa, não tinha laços com ninguém, era dono de si, sua vontade dirigia seus atos. Era assim um cosmopolita.
Certa feita, Sibite dormia tranquilo embaixo do banco de uma praça, uma praça qualquer, dessas que ele elegia como seu lar provisório, quando se deixou prender a atenção para um homem que sentado no banco da praça chorava como criança.
Sibite se comoveu com a dor daquele homem. Não sabia do que se tratava, aliás, nem tinha a pretensão para tanto, mas, por um instante, pode sentir a dor dele que de tão grande fez Sibite querer dividi-la, na esperança de que compartilhada fosse aliviada como um sopro gélido em feridas escaldantes.
E nesse transe de compartilhamento de sentimentos, Sibite conheceu a dor do homem e ela tinha nome:  Chamava-se decepção.

Quis conhece-la melhor, sua face era desfigurada, teve medo. Sibite fez da fraqueza força e a enfrentou. Percebeu que se mostrava de diferentes maneiras, a daquele homem era imensa, com raízes na honra e galhos no ego.
Estando frente a frente quis saber dela mesma a sua razão e ela logo respondeu: Foram promessas quebradas.  Pode sentir que a decepção, embora sentimento único, se apresenta com duas faces que oscilam entre o ingênuo inacreditável do “antes” e a cruel constatação da realidade dos fatos do “depois”.
Desnorteando a razão, revela-se um fardo pesado, difícil de carregar já que seu caminhar é sem chão, sem rumo, apresentando muitas estradas, mas nenhuma direção. E porque sem chão, para continuar, ao ser decepcionado não resta outra alternativa a não ser do peito dilacerado criar asas e aprender a voar.

Sibite silenciou porque compreendeu que por mais que se compadecesse daquele homem, somente a ele cabia se reinventar e, nesse novo ser, encontrar novas razões para viver. Quem sabe o choro do homem - criança não fosse o início do aprendizado de que somente se despojando de si, se poderá encontrar o verdadeiro “eu”.
Cristiane Caracas
19/10/2014

sábado, 27 de setembro de 2014

Fábula - Rafa, o rato que queria ser um coelho - Cristiane Caracas


Alameda das Acácias, número 27. Esse era o endereço do esgoto onde morava Rafa. Um rato branco, tamanho gigante que de tão grande por vezes era chamado de Rafão.
O esgoto era seu mundo. Junto com os demais ratos passava horas a fio se divertindo nos locais mais fétidos e desprezíveis da cidade.
Certo dia, entretanto, arriscou dar uma olhadela, ainda que rápida, para o lado de fora do “seu esgoto”. Era assim que Rafa chamava aquele lugar porque se sentia parte dele. E foi assim que Rafa, por um canto de olho, viu um coelho branco no parque sendo acariciado por uma criança. Por um instante sentiu uma ponta de inveja do coelho e pensou:
_ Eu também poderia ser acariciado. Ora, me pareço com aquele coelho, sou branco, grande, poderia muito bem me passar por um deles, aposto que ninguém perceberia a diferença. Rafa queria mesmo era se sentir acariciado e amado como aquele coelho.
Voltou de mansinho para o esgoto e enquanto os outros ratos se divertiam, pensava em uma maneira de se igualar ao coelho.

_ Primeiro preciso de um banho para realçar meus pelos brancos, pensou, e depois os coelhos não andam sujos como os ratos. Para finalizar cairia bem uma boa água de colônia para tirar dele o cheiro do esgoto.
E foi assim que Rafa tomou um demorado banho e despejou quase o vidro inteiro da colônia francesa que Nina, uma rata metida a chique, tinha lhe dado no amigo secreto do natal passado.
Naquele domingo ensolarado, Rafa encheu-se de coragem, deixou seu mundo subterrâneo e foi ao encontro das crianças que estavam no parque.
E deu-se o ocorrido. Ao avistarem Rafa, foi aquela confusão: mulheres gritando e subindo nos bancos da praça com seus filhos no colo, os homens, mais que depressa, pegaram paus e pedras para expulsarem Rafa dali.
_ Que rato enorme, disse uma.
_ Que nojo, gritou outra.
Rafa, atônito, voltou rapidamente para o esgoto e ao adentrar encontrou André, um rato idoso, que de longe assistiu a tudo.
_ Por que, André? Por que me trataram assim? Eles não veem que estou limpo e cheiroso como o coelho? Até me pareço com um deles. André respirou fundo e respondeu:
_ Você, Rafa, por mais limpo e cheiroso jamais deixará de ser um rato e, por isso, para eles, você não vive no esgoto, é o esgoto que vive em você.
_ Por que você não me disse isso antes André? Teria evitado meus sofrimento, falou Rafa.
_ Porque de nada adiantaria, disse André. É que certas realidades para serem compreendidas precisam primeiro ser vividas e sentidas nas entranhas da própria alma.
Então Rafa voltou para a casa e quebrou seu vidro de água de colônia francesa porque compreendeu que não lhe tinha nenhuma serventia enquanto os sentimentos dos homens se deixassem dominar pelos rótulos do preconceito e não pela generosidade do coração.
Cristiane Caracas
27/09/2014

domingo, 31 de agosto de 2014

Fábula - A bromélia e o escaravelho - Cristiane Caracas


Em um restinho de mata atlântica e hospedeira em um ipê amarelo havia uma bromélia. Bia, a joaninha, dividia a bromélia, como habitat, com outros bichinhos tão miúdos quanto ela. Naquela bromélia viviam, além de Bia, Benjamin o gafanhoto cocho, Lígia, a centopeia estrábica e Patrício um escaravelho negro e lustrado que, por ter chegado primeiro, se intitulava o dono do lugar. Viviam em parcial harmonia. É que vez ou outra o escaravelho ralhava com os outros moradores e exigia que fizessem uma limpeza na bromélia, quase sempre depois das chuvas, já que as bromélias acumulam água dentro de si. E lá se iam todos, a contragosto, fazer a tal faxina.
Certa manhã, nem bem os raios de sol se espreguiçavam por entre as árvores, Patrício, aos gritos, acordava a todos para contemplar ao que chamou de maior espetáculo da terra: o florescer de “sua bromélia”. De fato, era um espetáculo! Uma flor vermelha, enorme, forte e delicada ao mesmo tempo e, embora uma, parecia um buquê, ante a sua florescência múltipla.
Bia, estática, fixava o olhar naquela flor exuberante e ficou feliz com a chegada da nova moradora do lugar. E era sempre assim, à tardinha, se reuniam em torno da flor, cuja beleza encantou a todos e teve o condão de suavizar até as resmunguisses de Patrício.
_ A beleza tem disso, dizia Benjamim, é capaz de enfeitiçar e amolecer até os corações mais duros.
É que Patrício, agora, parecia outro, não reclamava mais de ninguém, e, vez ou outra, era flagrado com um sorriso de canto de boca, daqueles que somente os apaixonados reconhecem e que não adianta perguntar a razão, porque nem eles sabem o motivo. Bia assistia a tudo, curiosa por aquele sentimento que embora não fosse seu, causava nela um despertar de possibilidades.

Benjamim, mais experiente, alertava ao amigo que a beleza não é tudo, já que efêmera e fugaz, que a importância dos sentimentos está na permanência, na resiliência e, sobretudo, na capacidade de aceitar que dias virão em que não mais existirá aquilo que encantou aos olhos e só ficará o que se permitiu que fosse impresso na alma de forma a nem o tempo, as rugas e as circunstâncias serem capazes de apagar.
E aconteceu o que era previsto, mas que ninguém ousava sequer cogitar: o tempo da flor não era o mesmo tempo do inseto e ela murchou, perdeu a graça, despedaçou-se de forma lenta, numa luta para permanecer naquele lugar que a acolheu e lhe mostrou o que era paixão, e ela se foi porque era chegado o tempo de ir.
Todos ficaram atônicos à cena e naquele momento tiveram consciência de suas impotências diante do destino. O escaravelho era só desespero. Benjamin, o gafanhoto, lamentava que o amigo tivesse que passar por aquilo que no fundo ele conhecia alhures.
Bia, a mais nova, em busca de consolar o amigo, o fez enxergar que embora a flor se tenha ido, a bromélia permanecia e permaneceria em seu coração para sempre, que era a bromélia que sempre esteve ali, silente, paciente e se fez, sem que ele percebesse e sem nada exigir em troca, abrigo e aconchego nos tempos difíceis, que o amor nos torna belo, mas a essência do ser é que permanece.
Certamente, chegado o tempo, outras flores viriam, mas a bromélia, essa sim, seria sempre a mesma e a razão de existir de todas as outras flores que dela brotassem.
Lígia, a centopeia, lembrou que antes mesmo da existência da flor, Patrício, sem perceber, já zelava pela sua bromélia quando exigia que todos a cuidassem no período de chuva. Que o amor é assim: prende-nos por conexões invisíveis e inconscientes e que o escaravelho era um felizardo em poder viver dentro daquela que ele amava. É que quando se ama é isso que se quer: confundir-se com o outro, entrar dentro dele, desvendar os seus mistérios e apagar seus medos.
Patrício compreendeu que já amava a bromélia antes mesmo da flor e que certos sentimentos ficam intactos dentro de nós. Que a bromélia se fez notar pela beleza, porque aos olhos, daquele que não quer ver, precisa-se do belo para enxergar, mas que depois da beleza e da paixão o que permanecer é o que verdadeiramente se pode chamar de amor.
Cristiane Caracas
31/08/2014

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Fábula - O Guardião da Luz - Cristiane Caracas


Gigantes amarelos eram aqueles girassóis do campo. Como o próprio nome sugere buscavam incansavelmente pelo Sol e, por isso, todos os dias se firmavam diante do astro rei e giravam em acrobacias num diurno balé fascinante.
Certa noite, entrementes, a Lua, com inveja do Sol e inconformada com o desprezo daquelas flores, acordou os girassóis e propôs a eles que lhe devotassem a mesma importância que devotavam ao Sol.
- Veja que confortável não ter que passar horas a se contorcer em busca de migalhas de raios de Sol? Ao invés de procurar o Sol, eu é que vos buscareis e, com meus raios prateados, iluminarei o dourado de vossas pétalas, propôs.
Os girassóis mais novos, de certa forma revoltados com o inquestionável destino de submissão ao Sol, resolveram acatar o aliciamento da Lua. De dia, em revide, ficavam fechados em copas e à noite se abriam aos primeiros raios de Luar, em uma total transgressão das leis naturais que regem os girassóis.
Tudo parecia correr muito bem até que, cumprindo a ordem das coisas, era chegada a Lua Nova e, com ela, a escuridão no firmamento.
Os girassóis, naquela noite, não conseguiram desabrochar, ao revés, murcharam ante a ausência de luminosidade. O Sol, como de costume, bem cedinho em sua aurora, resplandeceu sem se importar com a decepção dos girassóis que ingenuamente acreditaram na ilusão de um reflexo.

_ Pobres inocentes girassóis, não se deram conta de que só há um guardião da luz.
Só então aquelas flores compreenderam, como num clarão de lucidez, que nascemos predestinados à luz, mas os eclipses da vida podem nos levar a caminhos ermos, obscuros, ludibriados que somos por aparências e caprichos disfarçados em formas de desejos que nunca se realizam porque acaso conquistados deixam de ser desejos e se transmudam em um pretérito esvaziado pela posse daquilo que se quis.
Querer ser Luz é conhecer a silhueta de sua própria escuridão de forma a não mais temer a sombra e entender que a vida deve ser vivida como um balé de girassóis que não se pode deixar enganar por ilusões de cintilâncias que são criadas por nós mesmos ante o desconhecimento da nossa própria alma.
Cristiane Caracas
08/08/2014 

sábado, 19 de julho de 2014

Fábula - Preciosas Amizades - Cristiane Caracas


Em um telhado de uma casa de fazenda, daquelas que parece ter se perdido no tempo, esquecida, com ares de que ainda vive no passado, sem perceber que o presente é fato e o futuro bate às portas, viviam muitos pássaros, dentre eles uma rolinha caldo de feijão e um corrupião.
Viviam de boa, livres, sem grandes dificuldades de sobrevivência e, principalmente, sem as ameaças do homem, tudo era harmonia naquele lugar.
Pois bem! A rolinha tinha pelo corrupião uma enorme estima, sempre moraram pertinho, se ajudando, se respeitando, criaram assim um laço estreito de amizade bonito de se ver.
O corrupião era aquilo: bonito, elegante, de um preto brilhante e um vermelho fabuloso, um canto espetacular de agradar aos ouvidos mais exigentes. Já a rolinha não tinha a mesma sorte, era sem graça, marrom, seu canto era muitas vezes confundido com agouro. Tais diferenças, entretanto, nunca sequer foram notadas, eram o que eram e se gostavam de qualquer jeito.
Chegou o verão e com ele, inesperadamente e sem precedente, chegou também, àquele telhado, uma fêmea sabiá, linda, rara e preciosa como uma joia, foi assim que o corrupião a enxergou e de logo se encantou pela novata.
O corrupião, vendo aquela beleza toda, de pronto se animou. Foi se chegando, logo se apresentando, dando ares de dono do lugar.
_ Como vais, nunca a vi antes, de onde vens e o que buscas?
_ Costumas fazer esse interrogatório a todas, perguntou a sabiá.
_ Não, só com para as bonitas, respondeu, em tom simpático, o corrupião.
A sabiá, nada difícil, ficou logo prosa do pássaro e engataram um romance ali mesmo. A rolinha não gostou nada do que viu, mordendo-se de ciúmes do amigo, mas sem querer admitir, reclamava com todos do telhado aquele assanhamento dos dois.
_ Indecência asse namoro, mal se conhecem, nunca se viram, amor de verão. Não se conformava.
O fato é que o corrupião era só suspiros para a linda sabiá que não se fazia de rogada, sabia que causava ciúmes na rolinha e se derretia toda para o corrupião, só para provocar.
Os dias passaram, a rolinha foi definhando de tristeza, não conseguia lidar com a situação, sofria, mas compreendeu que nada podia fazer, a não ser esquecer tantos anos de estima que tinha devotado ao corrupião, afinal ele tinha feito uma escolha, cabia a ela respeitar, porque não se implora afeto, sempre ouviu isso de sua avó. Consciente resolveu partir, porque ali já não tinham paz, restaram a ela o profundo silêncio e uma solidão lancinante.
Estava decidida, não o procuraria mais. Encontrou no silenciar a paz esquecida e a melhor reposta. É que muitas vezes a nossa guerra interior só é dissipada pelo silêncio pessoal capaz de restabelecer a harmonia sufocada pelos pensamentos ensurdecedores.
Os dias passaram e o corrupião nem para lembrar-se da rolinha, levava os dias alegres ao lado da linda sabiá. Certa manhã, entretanto, por uma fenda do telhado apareceu uma cobra cascavel, estava faminta e disposta a devorar a primeira presa que encontrasse e deu de cara com a sabiá que dormia ao lado do corrupião, a cobra, com ares de psicopata, acordou a sabiá, sorrateiramente e disse com voz cavernosa:
_Preparada para morrer mocinha? 
_ A sabiá deu um sobressalto e, diante do seu destino inevitável, tentou entrar em um acordo com a cobra.
_ Estou sim Dona Cobra, mas acho que Vossa Senhoria devia pensar melhor no assunto. É que estou por demais magrinha, não vês? Só pena e osso. Padeço de dores forte no peito, desconfio de uma tuberculose. Fosse a Senhora se assegurava de comer algo mais saudável e robusto, quem sabe o corrupião aqui, é forte, suculento e tá no ponto não acha?
_ Tuberculose é? E isso pega? Perguntou a cobra,
_ Ah, claro! Uma bactéria poderosíssima capaz de matar em poucas horas.
_ A cobra, que não tinha nada a perder, resolveu não arriscar e partiu para dar o bote no inocente corrupião que ainda dormia sonhando com a sua sabiá.

Àquela altura a rolinha vinha chegando, havia esquecido um bebedouro de estimação que sua avó lhe tinha dado e resolveu buscá-lo exatamente naquela hora. Percebeu a cena da cobra pronta para dar o bote no corrupião e partiu para cima da cobra, sem se dar conta que ela era pelo menos cinco vezes o seu tamanho e que não tinha meios de defesa contra a peçonhenta.
E deu-se o acontecido, foi aquela zuada, o corrupião acordou assustado, mas a tempo de ver sua amiga rolinha partir para o sacrifício para defendê-lo. A cobra fez a rolinha em pedaços, ela, porém, foi guerreira, bicou cabeça da cobra em tantos lugares que a fez desistir do desiderato, indo-se embora com uma terrível cefaleia e prometendo voltar para se vingar da rolinha atrevida.
O corrupião, vendo a amiga destroçada, correu em seu socorro. A sabiá, cara de pau, sabedora de que viria a ser desmascarada, cuidou em fugir rapidamente dali para nunca mais voltar.
A rolinha de certa forma se recuperou, mas o duelo lhe deixou sequelas, uma das asas ficou irreparável e ela não mais podia voar, ficou presa ao telhando. O corrupião aprendeu com a rolinha o que se é capaz de enfrentar por uma amizade verdadeira, cuidou dela para sempre, porque compreendeu que os puros sentimentos, estes sim, são como joias raras precisam ser lapidados, cuidados e assumidos, que a preciosidade da joia não está na sua beleza ou raridade, mas na capacidade que ela tem de nos fazer sentir importantes pelo só fato de tê-las conosco. Que não vale a pena se iludir com falsos adornos porque no mais das vezes seu brilho esconde uma reles bijuteria.
Cristiane Caracas
19/07/2014

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Fábula - O Jatobá e o Machado - Cristiane Caracas


Avencas, samambaias e limos adormecidos na penumbra sufocada pela umidade não deixavam dúvidas de que a floresta, embora silente, pulsava. Eram dias quentes somente amenizados pelas generosas gotas de orvalho da manhã. Um jatobá centenário, gigantesco e imponente, era uma das árvores daquela floresta tropical.
Não se ouvia muitas coisas por aquelas bandas.  O silêncio só era rompido, vez ou outra, pelos sons da floresta que se rendia quando a majestade, o sabiá, presenteava a natureza com o seu canto, cuja melodia toca a alma sempre que o ouvido, por um capricho, se disfarça em coração.
Numa manhã de sol que teimava a todo custo romper as copas das árvores e se mostrar, chegou ali um lenhador. Trazia nas mãos o machado. O homem por um instante experimentou a paz daquele lugar que teve o condão de aquietar sua mente em guerra, em uma dicotomia delirante. Sossegou sua confusão e o homem integrou-se como uma parte do todo. Ele ali ficou por algum tempo contemplando a floresta, mas a humanidade, cuja resistência se tinha abalado por tamanha paz, gritou ao silêncio para chamar o homem à consciência do seu não interior. Era hora de trabalhar e, sem mais delongas, pôs em punho o seu machado, escolheu, como quem escolhe um grande amor, aquele jatobá centenário.
O jatobá, embora sabedor do seu destino, surpreendentemente, não se balou, nada fez, nenhum esboço de medo ou terror atingiu a velha árvore. O machado pronto para desferir o primeiro golpe na madeira, em atitude desdenhosa, perguntou à árvore.

_ Não percebes o que há vir?
O sábio jatobá responde sem qualquer preocupação:
_ Do que falas machado? Por acaso, imaginas, tu, que sabes o que há de vir daqui a um segundo?
O machado riu-se do que pensou ser inocência da árvore.
_ Admitira-me que tu sendo tão velho não perceba o que represento. Sou o machado, capaz de ferir de morte qualquer madeira que atravesse meu caminho e logo advirto: não sou piedoso e pouco me importo com teu destino se serás um móvel que adornará um lugar qualquer ou uma reles lenha que só serve para ser queimada.
O velho e sábio Jatobá respondeu passivamente:
_ Não te ocorres que ao tentar me ferir possa tu ser o ferido?
_ O machado gargalhou ante a audácia da árvore.
_ Sou de ferro, nada me fere, estúpido jatobá.
Naquele momento o lenhador empunhou o machado e, ao se dar conta de que se tratava de uma madeira de lei, desistiu do seu intento porque sabia que na luta entre o seu machado e aquela árvore de difícil corte, seu machado, embora de ferro, não tinha a menor chance, pois também era feito de madeira, porém, não tão nobre e certamente se quebraria ao primeiro golpe no Jatobá.
O machado compreendeu que aceitar com resiliência aquilo que não pode ser mudado é que nos torna fortes. Que certas vezes é preciso recuar ante as circunstâncias adversas e esperar que o universo conspire a nosso favor.
Naquele momento a majestade, o sabiá, irrompeu o sagrado silêncio da floresta e com seu canto lembrou ao homem, ao jatobá e ao machado, que a totalidade nunca é igual à soma das partes e que somos um todo de fortaleza e fragilidades que devem ser respeitadas e nunca esquecidas porque como diz o velho ditado: “o risco que corre o pau, corre o machado”.
Cristiane Caracas
27/06/2014

sábado, 31 de maio de 2014

Fábula - A Sombra da Cerejeira - Cristiane Caracas


Frondosa e com galhos longilíneos uma jovem cerejeira compunha a paisagem de um parque da cidade. Naqueles dias de outono ninguém prestava muita atenção a ela, passando-se por uma árvore qualquer, dentre tantas outras do lugar. É bem verdade que produzia, com sua copa, uma enorme sombra, mas esse detalhe também era despercebido aos olhos de todos, não era importante.
Pois bem! Foi nesse cenário de pouco interesse que uma cotovia, logo cedinho, pousou nos galhos da cerejeira e começou a cantar seu canto de alvorada, saudando o Sol que acabava de raiar. A árvore não gostou nem um pouco daquela intrusa que se assenhorou de seus galhos e, por isso, tratou logo de reclamar.
_Quem pensa que és? Não te dei licença para pousares em mim e muito menos usufruir de meus galhos!
A cotovia, não acostumada com tanta grosseria, foi logo se desculpando:
_ Me perdoe, Dona Cerejeira, não sabia que te importunavas, ao contrário, pensei que estivesses gostando já que com meu canto ofereço o que há de mais perfeito e puro em mim. É que costumo escolher a dedo a árvore para a qual dedicarei meu canto e tu me parecias tão linda! Merecedora do meu melhor.
A cerejeira encabulou-se com a delicadeza da cotovia e replicou:
_ Eu, linda? De onde tiras tal tolice, sou uma árvore qualquer no meio de tantas outras, sem nada especial, não vês?

A cotovia insistiu:
_ De certo não consegues te enxergar como és porque não conheces a ti mesmo. Buscas dentro de ti a tua essência e verás o quão és bela. Vou-me indo agora, não quero mais incomodar-te.
A cerejeira, arrependendo-se de sua arrogância inicial disse timidamente, quase querendo não ser ouvida: Podes voltar e declamar tuas poesias em canto, quem sabe um dia não aprendo a ver-me da forma que me enxergastes e não apenas a minha sombra que por vezes me sufoca? A cotovia respondeu: Não cabe a mim desnudar-te, essa tarefe pertence somente a ti, é personalíssima, enquanto não libertares a tua consciência para os segredos da alma ninguém será capaz de te mostrar a luz, razão da tua sombra. Busca tuas raízes, descortina os esconderijos, desvenda teus cativeiros e saberás quem de fato és.
A cotovia foi-se e deixou a cerejeira reflexiva acerca daquela prosa esquisita e ao mesmo tempo perturbadora.
Passados alguns dias, com a chegada do verão, pousou na cerejeira um bando de pássaros migratórios, uma centena deles, sem pedir licença invadiu a árvore em ensurdecedores grunhidos que mais pareciam gritos de terror, puseram–se a agitar seus galhos e muitos ali deixaram rastros fétidos em uma imundície jamais experimentada antes pela cerejeira. Depois se foram sem qualquer interesse na árvore que lhes dera abrigo contra os raios do Sol.
A cerejeira nada fez, portou-se de forma passiva, permitindo tamanho abuso e desrespeito, calou-se de forma vil e foi aí que se lembrou da cotovia. A cotovia tinha razão, ela me confiou o seu melhor e eu me ofendi com sua prenda, mas, ao revés, com os pássaros forasteiros permiti que deixassem seus excretos porque projetei a porção pior, somos, assim, espelhos do nosso “eu” interior ora se fazendo belos, ora se fazendo caricaturas de nós mesmos.
Chegada a primavera a cotovia regressou e encontrou a cerejeira revestida em flor, num verdadeiro espetáculo da natureza. Era aquela linda árvore que a cotovia havia avistado porque a contemplou com lentes de amor, renascida e destacada de qualquer outra do lugar, reflexo do seu âmago, agora liberto da sombra e pronto para, assim como no canto de alvorada da cotovia que é prenúncio de um novo dia, acolher a aurora da sua vida.
Cristiane Caracas
31/05/2014

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Fábula - A Coruja e o Rouxinol - Cristiane Caracas

Raquel era uma coruja esperta que como todas as corujas adorava a vida noturna. Era livre e costumava gabar-se de nunca se ter deixado apaixonar.
_ Paixão é coisa para os tolos, dizia.
_ Amar só se eu ficar louca, disparava em gargalhadas.
Em uma noite quente de verão, como outra qualquer sem nada diferente ou especial, Raquel foi a uma festa na mata vizinha, foram muitas aves noturnas, todas já conhecidas da coruja e sabedoras da fama de coração duro que ela tinha.

No meio do caminho, entretanto, pararam para uma prosa e foi aí que puderam ouvir um doce e suave canto que vinha da escuridão. Raquel jamais ouvira tão bela música e se emocionou com aquela melodia de tal forma que se sentia mexida, encantada por aquele som.
Quis saber de onde vinha, o porquê de todas as emoções que o canto lhe causava. As outras aves insistiram com Raquel a respeito da hora de partir, mas, a coruja, àquela altura pouco se importava com qualquer festa ou diversão, queria mesmo era encontrar aquele canto que como encanto encheu sua alma de luz, embora ela estivesse na mais absoluta escuridão.
E foi ao seu encontro de forma apressada, ansiosa, com medo da luz de sua alma se apagar. O canto ia se tornando cada vez mais próximo e Raquel pode ver ao longe, em cima de um arbusto de amoras, um pequeno rouxinol de calda vermelha que cantava para a escuridão em doces e suaves poesias, pretendendo esquecer sua solidão.
Raquel, descuidadamente, deixou-se apaixonar pelo canto do rouxinol de calda vermelha. Lembrou-se de suas palavras quanto aos tolos apaixonados e teve vergonha de seus sentimentos. Deu-se conta do estigma de feiura das corujas e aí teve medo. Um medo jamais experimentado dantes, medo de ser rejeitada, ridicularizada até.
_ O que diriam as outras aves de uma coruja feia se apaixonar por um lindo rouxinol? Ou pior, e essa ideia lhe era insuportável, aquele rouxinol rir dela e de seus sentimentos.
Recordou de quando falava que o amor somente lhe caberia quando estivesse insana. Indagou a si mesma se tudo não passava de um delírio, mas ao ouvi-lo novamente convenceu-se de que era amor.

Quis aproximar-se, recuou diante de sua covardia, pensou no que tinha a oferecer, teve consciência de sua insignificância. Não tinha atrativos físicos, muito menos um belo canto. Revoltou-se com sua própria condição, amaldiçoou o céu por tê–la feito coruja.
E todas as noites daquele verão vinha de mansinho, escondia-se entres os galhos de uma árvore qualquer e ficava horas ouvindo aquele lindo canto que lhe trazia paz, mas também era o causador de sua insônia. Os sentimentos se misturam assim para Raquel ora como luz, ora como trevas, era doce e ao mesmo tempo amargo, sofria, mas seus olhos grandes davam uma festa todas as vezes que ele chegava, seu coração se alegrava só de pensar que à noite iria poder ver e ouvir seu amado.
E foram várias noites em que a coruja silente amava sozinha aquele rouxinol. Nunca se fez perceber, jamais ousou encará-lo, não teve coragem de enfrentar seus medos e confiava que o tempo fosse lhe dar as respostas de que tanto precisava.
O que Raquel não sabia é que os rouxinóis, da mesma forma que chegam se vão, porque aves migratórias não se deixam aprisionar por lugar nenhum e, por isso, ele se foi sem dizer adeus. A ave não podia acreditar na partida de seu rouxinol que, embora nem desconfiasse, era a razão de sua existência.
Percebeu que até então não tinha vivido, apenas existido e que o amor, que iluminou à sua alma, é que ascende os corações, nos faz melhor e nos torna capaz de aceitar a ambiguidade dos seres, porque somos muitos quando amamos e não somos nada, além de fragmentos de existência, quando incapazes de amar.
Raquel compreendeu, em sua solidão, o quão tolos são os mudos apaixonados, quão insanos são os silentes amantes que confiam no tempo e esquecem que esse mesmo tempo tripudia daqueles que não têm a coragem de enfrentar suas próprias vozes e medos.
E até o último dia de sua vida Raquel, por se ter calado, teve que ouvir, nas noites escuras, não mais o lindo canto do seu amado rouxinol, mas o sussurro da solidão e o grito de dor da sua saudade chamando por ele.
Diz a lenda que nas noites de lua minguante, quando a escuridão vira dona do firmamento, todos os que amam em segredo, se ficarem em profundo silêncio, serão capazes de ouvir o lamento de Raquel que ecoa em um choro triste, por não poder voltar o tempo e dizer ao seu rouxinol tudo aquilo que ficou preso em sua garganta muda.

CRISTIANE CARACAS
09/05/2014

domingo, 23 de março de 2014

Fábula - A Grande Riqueza - Cristiane Caracas

Os inúmeros ipês de variadas cores formavam um cantinho de mata onde morava uma família de tatu bola. Era uma família de três filhos, além do pai e da mãe. A vida corria normalmente, as crianças tatus bola cresciam e os pais acompanhavam a tudo sem problemas. O tatuzinho do meio, agora contando com 14 anos, decidiu que já era grande o suficiente para enfrentar os perigos da mata sozinho.
- Já sei de tudo o que preciso saber, não há motivos para não sair para a mata e curtir o que ela pode me proporcionar, dizia Gabriel, esse era o seu nome. Os pais, entretanto, não concordavam com a ideia do adolescente.
E foi por isso que Gabriel, às escondidas, em uma noite clara de Lua cheia, saiu de casa e “ganhou a mata”, como ele mesmo dizia. Percorreu colinas, cruzou riachos e veredas e conheceu muitos outros animais. Foi quando conheceu Mário, uma raposa metida a esperta, que era famosa por enganar os outros.
Mário sabia que já estava conhecido por tirar vantagens dos outros bichos e que por isso ninguém o queria por perto. Chegou de mansinho para Gabriel, fingindo ser amigo, e propôs:
- Ô Gabriel, você que não quer ser o tatu bola mais rico da mata?
- Como posso ficar rico assim de uma hora para ao outra? Perguntou o tatu.
- Se você deixar vou te fazer o tatu mais sábio e rico da floresta.
- E como vou fazer pra ficar rico?Insistiu Gabriel.
- Enganando os bestas, disse Mário, é muito fácil, vou te ensinar e ficarás mais esperto que todos da floresta. Basta fazer o que te mandar e verás que em pouco tempo acumularás fortuna.
Gabriel, logo se interessou e começou a fazer tudo o que a raposa mandava. A raposa, astuta, combinou que todas as noites o tatu cavaria um buraco até um galinheiro que ficava próximo da mata e furtaria os ovos das galinhas. Depois, a raposa venderia na feira frequentada pelas cobras e lagartos que adoravam ovos.
 Deu-se o ocorrido, Gabriel cavou um buraco até o galinheiro e todas as noites levava os ovos e os entregava a Mário para vender na tal da feira. E assim se passaram várias noites e Gabriel a espera pelo dinheiro prometido que nunca chegava. Mário, sempre dando desculpas esfarrapadas, justificava:
- A cobra comprou fiado, disse que vai pagar amanhã, mas, cobra é cobra, não se pode confiar.
Até que uma noite o dono do galinheiro, percebendo o desaparecimento dos ovos, ficou de guarda e quando o tatu adentrou foi surpreendido com o estampido da espingarda e uma rede que o aprisionou. Preso, Gabriel ficou solitário e por vários dias imaginou que o amigo iria salvá-lo.
- Mário certamente sabe que fui capturado e vem me salvar, pensava.
Pobre tatuzinho a sua espera era em vão, a raposa nunca foi ajudá-lo.
Uma pomba, amiga da mãe de Gabriel, que sobrevoava a fazenda avistou o tatu aprisionado e tratou logo de avisar a família.
Passado poucos dias Gabriel avistou toda a sua família que, de mansinho, abriu as grades e o salvou.
Foi uma felicidade só, abraços de um lado, lágrimas do outro, finalmente estava entre os seus e o que é melhor livre novamente.
Saíram alegres e contentes até que, ao chegarem à mata, ouviram gritos de socorro e avistaram Mário, a raposa, presa em uma arapuca de caçador. Sem pensar duas vezes Gabriel, abriu a arapuca e libertou Mário que estava a ponto de desfalecer.
Daniel, o tatu bola caçula, indagou de Gabriel:
- Por que você ajudou o Mário? Não viu que ele te enganou e te abandonou na hora que você mais precisava?
- Gabriel refletiu e respondeu:
- Ajudei porque todos que passam em nossas vidas nos ensinam algo, uns ensinam pelo amor, outros pela dor e eu tive que aprender pelo caminho mais difícil. Mário me disse, quando o conheci, que me faria o tatu bola mais sábio e rico da floresta e ele conseguiu. Sábio é quem perdoa, pois, quem não perdoa é prisioneiro de si mesmo. Quanto à riqueza, já era rico e não percebia, pois maior fortuna não há que a família que está ao sempre ao nosso lado, formada pelos laços indestrutíveis de sangue e de amor.
Fortaleza-CE, 23.3.2014.
Cristiane Caracas.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Fábula - Naldo, o Pinto entendido das cores



Naldo era um pinto que morava em um galinheiro lá na fazenda do Sr. Alan. O Senhor Alan e sua esposa, Dona Branca, eram um casal de idosos simpáticos, mas que não gostavam de mudanças. No galinheiro da fazenda do Sr. Alan havia uma regra: todas as aves só podiam se vestir de branco, tudo em homenagem à Senhora Dona Branca.
Reginaldo, esse era o nome de Naldo, nunca se conformou com a tal regra e tinha o sonho de ver cores no galinheiro. Ele achava que as cores traziam com elas sensações: a alegria do amarelo, o calor do vermelho, a mansidão do azul, a inquietude do laranja, a harmonia do lilás e a delicadeza do rosa.
Naldo era um inconformado, queria mudar o galinheiro, queria que essas “sensações” pudessem fazer parte da vida de todas as aves que ali viviam, mas era o único a se importar com “sensações,” as outras aves achavam tudo isso uma tremenda bobagem.
Dora era uma galinha influente porque sempre seguiu as regras de forma a nunca quebrá-las. Seu guarda roupas, sempre impecável, era ornado dos mais belos vestidos brancos de renda, os quais ela se orgulhava de fazê-los ela mesma. E, talvez porque nunca se permitiu pensar em mudar, Dora foi a primeira a não gostar da ideia de mudança e, com seu bico afiado, tratou logo de espalhar que tais pensamentos só poderiam vir de uma cabecinha maluca como a do esquisito Naldo.
Formou-se uma grande divisão no galinheiro, uns eram a favor das cores e outros a favor do branco. Foram muitas discussões, bate bicos e desentendimentos por todos os lados. Finalmente, chegaram a um acordo: iriam fazer uma votação e decidir se deviam ou não colorir o galinheiro.
Chegou o grande dia, todas as aves residentes no galinheiro foram votar: os galos, galinhas, frangos e frangas adolescentes. O galinheiro todo estava ansioso para saber o resultado que foi proclamado pelo galo mais velho: VENCEU o Branco, 16 votos a 08.
Naldo era só tristeza. Lembrou-se do preto que trazia a sensação que ele estava sentindo e foi aí que pensou: se as cores causam em mim tais sensações e se as outras aves não sentem assim, tenho que respeitar, mas isso não impede que eu comece as mudanças por mim. Seria assim, então, começaria a vestir-se com as cores que refletisse o que ele estava sentindo e pouco importava se os outros não queriam mudar, a mudança mais importante começaria por ele. Primeiro, decidiu usar uns óculos cor de rosa, queria com isso enxergar as coisas de forma mais delicada, dizia. As aves todas caçoavam de Naldo e diziam: Dora tem razão, esse pinto Naldo é mesmo um esquisito maluco, metido a ser diferente.
- Onde já se viu usar óculos cor de rosa para enxergar dessa ou daquela forma. Algumas galinhas, mais modernas, porém, de forma ainda tímida arriscaram dizer que tais óculos até que eram charmosos, mas tudo de forma muito discreta, com medo de serem chamadas de malucas também.
Depois dos óculos vieram o chapéu roxo e a gravata verde. Naldo ouviu piadas e reprovações, mas não ligava. As cores lhe faziam bem, ser da forma como ele se sentia trazia uma sensação que ele até então não conhecia e nem sabia dizer em que cor encontrá-la. Foi aí que tomou uma decisão, mandou fazer um paletó com todas as cores e foi passear pelo galinheiro vestido de arco íris. Ah! Que sensação maravilhosa poder vestir-se de todas as cores ao mesmo tempo era o máximo, foi quando percebeu que todas as cores juntas lhe traziam aquela sensação que ele tanto procurava a da FELICIDADE.
Àquela altura alguns franguinhos e franguinhas adolescentes já ousavam vestir uma ou outra peça colorida, até os mais velhos arriscavam um cinza ou bege de vez em quando e as galinhas solteiras, separadas e divorciadas apostavam sempre no vermelho a quem elegeram a cor da paixão.
Dora, quem diria, foi quem, depois, radicalizou no colorido, mandou fazer uma tatuagem de arco íris tamanho gigante nas penas do bumbum, dizia que as penas coloridas davam um certo charme ao rebolado.
E foi assim, aos pouquinhos, que o galinheiro, por causa da mudança pessoal de Naldo, foi aceitando as cores e compreenderam que Naldo não era maluco ou esquisito, apenas tinha preferência pelo colorido e não pelo branco e que a harmonia do galinheiro estava exatamente em aceitar e respeitar as diferenças de cada um, inclusive daqueles que continuavam preferindo o branco.
Fortaleza/Ceará, 25/2/2014.
Cristiane Caracas