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quinta-feira, 18 de junho de 2020

Sigmund Freud e as Feridas Narcísicas da Humanidade, ou A Soberba como primeiro Pecado Capital


Sigmund Freud, há mais de 100 anos, afirmara que a humanidade havia sido ferida em seu narcisismo em 3 ocasiões.
A primeira quando foi postulado por Nicolau Copérnico (apesar de a tese já ter sido aventada desde os tempos pré-socráticos) que o planeta Terra não era o centro do Universo como a Teologia Medieval pregara por tanto tempo, mas apenas mais um planeta em uma enorme vastidão sideral.
A segunda ocorreu quando Charles Darwin teorizou e provou que a humanidade nada tinha de especial em relação aos outros seres, posto que surgira a partir das mesmas leis evolutivas que regiam todas as demais espécies.
Já a terceira e mais contundente afronta à mania de grandeza dos humanos, como dizia o pai da Psicanálise, foi quando restou demonstrado pelos estudos e postulados psicanalíticos que o indivíduo não é senhor nem de sua própria casa, tendo em vista o Ego (ou o Eu) é apenas um dos vários elementos da psique e sua suposta autonomia e independência é, na verdade, inteiramente dependente do Inconsciente, onde residem as causas últimas do suposto livre arbítrio humano.    
Essa questão do narcisismo humano é tão antiga quanto a própria humanidade, conforme tão bem constatado pelos Padres do Deserto (monges, eremitas e ascetas que habitaram os desertos do Egito a partir do século III d.C.), na medida em que postularam que o Orgulho era o pior dos 7 Pecados Capitais.
As constatações de Freud e dos eremitas monásticos não são apenas de cunho social e religioso, mas aplicam-se cabalmente à questão terapêutica, na medida em que um dos principais aspectos a ser trabalhado pelo paciente é o apego do indivíduo às suas questões egóicas, que tanto o fizeram, fazem e, certamente, farão sofrer, até que haja a tomada de consciência de suas sombras e a efetiva entrega ao processo de Individuação.
Por pertinência, cito Carl G. Jung: "Até você se tornar consciente, o Inconsciente irá dirigir a sua vida e você vai chamá-lo de Destino."
Anastácio Aguiar
Psicanalista, hipnoterapeuta e constelador familiar sistêmico

terça-feira, 28 de abril de 2020

A Leveza do Agora ou Diga-me onde vc sintoniza a sua energia que te direi onde estás e quem és.


Reza a lenda que Pitágoras, certa feita, caminhava por uma aldeia que se localizava próxima à sua escola, e deparou-se com uma discussão entre dois homens. Ambos estavam muito exaltados e o desfecho lógico do acirramento do embate parecia ser um violento conflito iminente.
Com a serenidade que lhe era peculiar, o velho mestre lançou mão de uma lira que estava próxima e tocou algumas notas, iniciando uma harmoniosa melodia. De pronto, os homens foram se acalmando e interiorizando a sua energia, refletindo sobre a desnecessidade de tudo aquilo. Aos poucos, retomaram sua consciência e seguiram seus destinos.
Pois bem, a horizontalidade das questões materiais hodiernas, por vezes, nos torna cegos às maravilhas da Verticalidade consciente. Os cantos e encantos de Pisinoe parecem permear e consumir as energias dos que se encontram maravilhados com a superficialidade do Relativo.
Assim, em alguns momentos, nos é ofertado o caduceu de Mercúrio, como oportunidade de ascensão, que pode se manifestar por uma simples música que nos eleva e nos faz recordar, mesmo que por um fragmento de memória, dos tempos dourados do Nirvana.
Por pertinência, cito o velho mestre Hermes Trismegisto: "O que está em cima é como o que está embaixo, o que está dentro é como o que está fora."

Anastácio Aguiar Psicanalista, hipnoterapeuta e constelador familiar sistêmico

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Pai, perdoa-lhes, eles não sabem o que fazem - Jesus Cristo


Poucas frases curtas podem ter tanta profundidade quanto a sentença proferida por Jesus na cruz.
Sua simbologia transcende épocas, representada pelo ápice da humildade em se solicitar o perdão aos ofensores, como também traz à tona o cerne de todos os problemas que afligem a humanidade, a relação Consciência/Inconsciência.
Guerras, fomes, pestes e tantas outras mazelas mais nunca foram o principal problema dos humanos, mas simples consequências da única e verdadeira enfermidade: a Inconsciência, que reside em se preferir fazer o pior, mesmo sabendo o que é melhor, tão bem destacada por Platão pelo aforismo: "A ignorância é o único mal."
Estaremos eternamente presos às amarras do processo encarnatório e brincando no playground do iter evolucionário do espírito enquanto não possamos reconhecer e interiorizar esses dois sutis, mas profundos axiomas: o perdão e a evolução da Consciência.
Anastácio Aguiar
Psicanalista, hipnoterapeuta e constelador familiar sistêmico

domingo, 29 de março de 2020

Sobre o Belo e o Bem

Ontem, domingo, dia 29/3/2020, o sol se despediu em grande estilo e com um espetáculo digno da sua grandeza, ao nos presentear os seus derradeiros raios do dia de forma retumbante e gloriosa, conferindo rara beleza aos céus.
E por falar em beleza, trago, por pertinência e por necessidade nos dias atuais, a lógica platônica que nos recorda que o Belo é o consectário lógico e inseparável da Harmonia.
Tornar-se Belo é um imperativo moral do ser humano e buscar a Beleza é possuir a si mesmo, em total integração com as Leis que regem a Natureza e a ideia universal do Bem.
Em última análise, o Belo é a forma manifesta do Bem. só o reconhece e o chama de amigo aquele que se harmoniza com as Leis do Todo.
Namaste,
Anastácio Aguiar
Psicanalista, hipnoterapeuta e constelador familiar sistêmico
(foto tirada às 17:45h do dia 29/3/2020 no Porto das Dunas, Aquiraz/Ceará)

quinta-feira, 19 de março de 2020

Tempos Esquizóides, ou Uma Visão Terapêutica dos Tempos de Coronavirus

A Esquizoidia é um fenômeno amplamente conhecido por aqueles que estudam a Bioenergética de Wilhelm Reich e Alexander Lowen. Trata-se do tipo de caráter formado quando da vida intrauterina do feto ou logo após o seu nascimento. Ocorre quando o ser ainda em formação sente-se rejeitado por algum evento que venha a lhe acontecer durante esse período. Em resposta à sensação de rejeição, ele(a) reage criando o seu mundo próprio, alienando-se do que está acontecendo e recolhendo-se ao seu mundo imaginário pessoal, como forma de proteção à dor. Essa característica de caráter moldará a personalidade do indivíduo durante toda a sua vida, propiciando tornar-se uma pessoa mais retraída e pronta a afastar-se do mundo exterior, toda vez que sentir-se ameaçado.
Em geral um indivíduo com esse tipo de personalidade seria classificado pelo Eneagrama como o tipo 5, o observador, o analítico, o introvertido, o pensador, aquele que privilegia o centro mental, onde se concentra mais a sua energia.
Em se tratando de concentração de energia no centro mental, a Biossíntese, de David Boadella, nos ensina, que esses tipos são formados, estruturalmente, no útero materno, quando da maior ênfase dos afetos no tecido ectoderma, material celular responsável pela criação, dentre outros, do sistema nervoso.
A atual realidade de isolamento social que vivemos por conta do Coronavirus segue o mesmo iter acima destacado, ou seja, em razão da ocorrência de um trauma (vírus) a população se recolhe em suas casas (mundos internos) para evitar uma dor maior (doença).
No âmbito terapêutico, para os pacientes com traços esquizóides, deve-se enfatizar o tratamento na ressignificação dos eventos traumáticos e incentivar as reconexões sociais, que deverão ser refeitas em outras bases, mais serenas, harmoniosas e saudáveis. Talvez, seja isso o que todos deveríamos fazer no nível micro e macro da nossa sociedade, com as lições aprendidas pela passagem da onda do Coronavirus.
Anastácio Aguiar
Psicanalista, hipnoterapeuta e constelador familiar sistêmico

segunda-feira, 16 de março de 2020

Neuroses de Classes e Limitadora da Felicidade, ou Como lidar com a autossabotagem?

Poucas pessoas, fora da seara psicoterapêutica, já ouviram a expressão "Neurose de Classe", que representa as dificuldades que encontram um filho(a) para ultrapassar a classe social dos pais.
Por óbvio, não se trata de impedimentos econômicos, mas sim de autolimitação psíquica imposta pelo próprio indivíduo em razão da pressão oculta do seu sistema familiar, brilhantemente analisada por Vincent Gaulejac e descrito de forma didática e clara no livro "Meus Antepassados", de Anne Ancelin Schutzenberger (fica a dica de leitura deste livro).
A partir desse conceito, é possível inferir a também conhecida "Neurose limitadora da Felicidade", que com base no mesmo princípio da fidelidade ao núcleo familiar sistêmico, impede de os filho(a)s, que tenham tido pais infelizes, serem plenos e felizes.
O(s) filho(a)s que não consegue(m) se desvencilhar desse amaranhamento sistêmico se autossabotam e boicotam de forma inconsciente e perene a sua evolução e felicidade.
A boa notícia é que essas neuroses são plenamente ressignificáveis, caso seja aplicada a técnica correta para libertação dos emaranhamentos sistêmicos.
Anastácio Aguiar
Psicanalista, hipnoterapeuta e constelador familiar sistêmico

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Santa Marta e o Dragão, ou E você, como lida com as suas Sombras?


Conta a lenda, que os irmãos Marta, Maria e Lázaro tiveram que fugir da Judeia após a morte de Jesus, em razão da primeira perseguição aos seguidores de Cristo.

Teriam fugido de barco e aportado na costa da França. Por lá, pregavam a fé cristã. Certa feita, os habitantes da cidade de Tarascon pediram à Marta que os ajudassem contra um dragão que aterrorizava a população. Marta adentrou na floresta e lá encontrou o dragão que devorava um homem. Na presença do violento animal, aspergiu algumas gotas de água benta, atou-o com o seu próprio cinto e o levou à cidade como se fosse um dócil cordeiro. Atônito, o povo atacou o dragão com paus e pedras e o matou.
A fascinante lenda de Santa Marta traz uma clara alusão à psique humana. O dragão é facilmente identificável com as sombras que habitam o Inconsciente (representado pela floresta) de todos nós, simbolizando nossos medos, culpas, angústias, incertezas etc. A consciência, em equilíbrio, é representada por Santa Marta, que de posse da água benta (qualidades do espírito, tais como: Respeito, Sinceridade, Gentileza e Serviço, como diria Lao-Tsé) facilmente domina as pulsões instintuais e as coloca a serviço da Consciência. O populacho, por sua vez, parece referir-se aos impulsos do ego, que movido pelo medo e desconhecimento, usa a força bruta para destruir o que ignora.
A temática acima referida foi amplamente estudada e teorizada por Carl G. Jung, o pai da Psicologia Analítica, o qual indico a leitura de suas obras.
E você, como lida com o seu Dragão?
Anastácio Aguiar
Psicanalista, hipnoterapeuta e constelador familiar sistêmico

domingo, 15 de dezembro de 2019

Sobre Freud, Ivan Nagy, Bert Hellinger e Nêmesis; ou Cuidado com o desejo vão, pode ser o começo do fim; ou ainda A conta chega, mais cedo ou mais tarde, para todo mundo


Sigmund Freud nos conta em um dos seus livros que, certa feita, recebeu em seu consultório uma paciente altiva e bem vestida, que pela sua postura e educação, deveria pertencer às altas classes da sociedade.
Ela disse que o procurara para relatar que havia tido uma amiga de infância de poucas posses que um dia lhe informara que iria se casar com um homem maravilhoso que ela muito amava e sentia-se muito feliz com ele. Combinaram as duas um encontro com o rapaz para que lhe fosse apresentado o noivo da amiga. Quando do encontro, ela apaixonou-se pelo prometido em casamento e decidira que iria matar a outrora amiga para se casar com o moço. E assim o fez. Pouco tempo depois, envenenou a amiga e desposou seu ex-noivo.
O casal teve uma filha e os anos se passaram. Quando a filha já era adolescente, a conta dos seus atos vis chegou. O marido faleceu repentinamente, a filha que nunca havia se dado bem com ela viajou para outro continente e nunca voltou. Restava-lhe ainda o apego aos seus cavalos, que sempre foi sua grande paixão, juntamente com os seus belos cães. Pois bem, semanas após o falecimento do marido, seus cavalos tornaram-se arredios a sua presença, impedindo-a de montar-lhes e, também, os seus cães vieram a falecer de forma súbita. Ela complementou que tudo o que ela sempre amara já não mais existia. Após descrever sua história, despediu-se, informando a Freud que ele jamais a veria novamente, o que levou o velho terapeuta a concluir que ela iria suicidar-se.
Essa questão da Justiça nos sistemas trazida por Freud, tornou-se pedra angular na composição teórica de determinadas linhas de pensamento terapêutico, como o caso de Ivan Boszormenti-Nagy, que colocava a Justiça ao lado da Equidade e Lealdade como preceitos básicos no que ficou conhecido como o Processo Transgeracional. Posteriormente, Bert Hellinger adota tais conceitos e os incorpora às suas Constelações Familiares Sistêmicas.
Tal evento, lembra-me o mito de Nêmesis, deusa grega, que está encarregada de castigar os atos daqueles que se elevam acima de sua condição, tanto no bem quanto no mal, e infringir a devida represália para que não seja subvertida a ordem do mundo e pôr em perigo, assim, o equilíbrio universal.

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Sri Prem Tata, a mudança de cada um; ou A ressonância do campo morfogenético


Chegara a data na qual Sri Prem Tata reservava anualmente para atender os aldeões, depois de um longo período de meditação e ascese. O evento era concorrido, pois vinham pessoas de todo o reino ouvir as sábias palavras do mestre.
Após uma rápida preleção na qual Tata destacava a importância de ser virtuoso e optar pelo caminho do meio, foram permitidas as perguntas. Um jovem aldeão assim se manifestou:
_ Mestre, na minha família e amigos observo pessoas agindo de forma imatura e subordinada aos impulsos do Ego e, por vezes, não me contive e tentei mudá-los, o que infelizmente gerou conflitos e desarmonia, por quê?
Tata, que docemente o ouvia, asseverou:
_ Cada um de nós vive em um determinado estado evolutivo e são poucos os que estão prontos a crescer ouvindo opiniões contrárias às suas. Todo nosso esforço para mudar deve ser direcionado a nós mesmos, se assim obtivermos sucesso em nossa mudança pessoal, transformaremos não somente a nós mesmos, mas todos os que estiverem a nosso redor. Em outras palavras, não podemos mudar ninguém, mas podemos fazer ressoar os efeitos da nossa mudança íntima nos outros.

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Você é digno do seu tormento? ou Sofrimento, um processo ilusório e/ou curativo



Não é difícil inferir que todos os pacientes que procuram a clínica psicanalítica estão com um ou mais problemas a equacionar. A variedade e complexidade das questões é tão extensa quanto a própria natureza humana.
Pois bem, como dito acima, a expectativa do paciente é que a questão/problema que o leva à terapia seja eliminada e ele/ela possa retomar o que entende ser a sua vida normal.
Talvez um dos aspectos mais importantes a ser destacado no processo terapêutico, e que poucos chegam com essa noção, é que, em última instância, as questões que o levaram à clínica são fatores essenciais do processo de restauração do equilíbrio perdido da psiquê, não tendo natureza autônoma, nem ontológica. Ou como diz Eckhart Tolle: “Um problema só é necessário, até tornar-se desnecessário.”
Carl G. Jung nos ensina que um dos primeiros passos no processo terapêutico é a aceitação do indivíduo como ele é, em especial, os seus defeitos, o que requer uma grande dose de humildade, nem sempre fácil de obter. Somente após essa primeira fase da conscientização da sombra, pode o paciente ressignificar as suas energias, reorientando-as a seu favor.
Por mais paradoxal que possa ser, a exemplo da vida que guarda seu sentido, o sofrimento também. Faço referência a Dostoievsky: “Temo somente uma coisa, não ser digno do meu tormento.” Tornar-se digno do próprio tormento é reconhecer a sua função e mensagem, ao tempo de compreender que tanto lhe é ilusório como curador. O teu tormento, em verdade, é a tua bênção.
Concluo com a citação de Krishna para Arjuna em Bhagavad-Gita “O que é noite para todos os seres, é dia para o homem que consegue vencer a si mesmo”.

*Texto em parceria com Augusto Cláudio Ferreira Guterres Soares

José Anastácio de Sousa Aguiar
Psicanalista, hipnoterapeuta e terapeuta de vidas passadas

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Inconsciência, a raiz de todos os males

Em um sentido mais amplo, Ignorância nada mais é que INCONSCIÊNCIA, que é a raiz de todos os males.
É a inconsciência egóica que leva o indivíduo, mesmo sabendo (conscientemente) o que é melhor, escolher (inconscientemente) o pior, o mais vil, o mais corrupto, o mais desonesto, como forma de amenizar alguma dor sua interna enraizada (ou como diria Jung, reduzir a tensão dos complexos), gerada por eventos remotos (muitas vezes ancestrais), que leva a criança carente interior a dominar e controlar os atos e emoções do adulto.
Em verdade, o caos interno do indivíduo inconsciente quer, a todo custo, se manifestar no mundo exterior da realidade fática, fazendo-o escolher (processo de identificação) o que no mundo externo mais se assemelha a sua mazela interna, como forma (inconsciente) de alertar o indivíduo para a importância da conscientização, do autoconhecimento.
Caso a pessoa relegue essas questões a segundo plano, a encarnação do indivíduo inconsciente estará inevitavelmente comprometida.
Estar desperto e aproveitar a encarnação para realizar o seu Darma, não para gerar mais Karma, pode ser a única missão que nos foi dada.
José Anastácio de Sousa Aguiar
Psicanalista, hipnoterapeuta e terapeuta de vidas passadas

sábado, 4 de maio de 2019

Sri Prem Tata, a conexão de cada um; ou Estar ou não em comunhão com a existência, eis a questão


Certa feita, Tata e seu fiel discípulo caminhavam pelas belas montanhas do reino, percorrendo os bosques e lagos que ornamentavam a região. Em um determinado momento, o companheiro de jornada pergunta a Tata:
_ Mestre, estar em contato com a Natureza nos traz uma sensação de bem-estar difícil de atingir nas cidades. Por que isso acontece?
Tata, que havia feito uma parada na caminhada e contemplava a planície de um elevado ponto da montanha asseverou:
_ Em verdade, tudo é questão de conexão. Quando o indivíduo não está conectado consigo mesmo, ele está separado da existência e de suas potências. Somente aquele que estiver em harmonia com o seu interior, com o Divino que há nele, conseguirá exercer seus dons e potencialidades que lhes são inatos. É a mesma coisa que retirar um peixe do mar e atirá-lo na areia. A infelicidade, o sofrimento e a tortura pelos quais ele passa apontam que ele está fora da sua real natureza. O anseio e o esforço para voltar ao mar nada mais são que formas indicativas de desconexão, porque o mar é o seu lugar, estar no mar é estar em conexão com a sua verdadeira natureza. Qualquer sofrimento é simplesmente um indicativo de que o homem não está em comunhão com a sua existência, com a sua realidade mais íntima, um indício de que o peixe não está no mar.

sábado, 16 de março de 2019

O complexo de Wilson; ou Como acabar uma relação aos poucos


Há algum tempo, o ator americano Tom Hanks foi o protagonista de um filme chamado aqui no Brasil de “O Náufrago”. Após a queda, em alto mar, do avião no qual ele estava, Chuck Noland (Tom Hanks) fica em uma ilha deserta na companhia de alguns objetos que estavam sendo transportados como carga pela aeronave. Dentre os objetos, encontrava-se uma bola de voleibol, que Chuck passou a tratar como amigo e a nomeou de Wilson (a marca da bola).
Pois bem, depois de algum tempo adaptando-se à ilha e de prolongado convívio com o Wilson, no qual ocorreram momentos de boa convivência, mas também de atritos e xingamentos, Chuck passou a pensar em uma maneira de tentar sair daquele isolamento. Montou um simples barco com o material disponível e posicionou o fiel amigo na proa do barco.
A aventura do mar apresentou-se perigosa. Para pescar, Chuck amarrava uma corda no barco e a segurava com firmeza, enquanto estava na água a procura de algum peixe. Durante toda ausência ao barco, a referida corda, firmemente empunhada, era a ligação entre ele e sua nau.
Certo dia, cansado e faminto, o náufrago adormece. Em razão do mar agitado, Wilson cai ao mar e Chuck só o vê quando está a uma distância maior do que a extensão da corda. Mesmo assim, empunhando a corda, ele salta para resgatar o amigo, mas vê aos poucos Wilson afastando-se, levado pelas ondas. Chuck chega ao limite do tamanho da corda, se ele soltar a corda poderia ter chance de alcançar Wilson, mas arriscaria perder-se do barco e sucumbir no vasto oceano. Ele retorna ao barco e o amigo vai se afastando, pois não há nenhum laço que os uma.
A cena referida apresenta-se repleta de simbolismo. Tenho visto na minha prática psicanalítica que a questão acima referida é mais comum do que se possa imaginar. A conexão que mantemos conosco mesmo (mundo interior) e com os demais deve ser objeto de constante regagem e amorização, sob pena de cair no “sono” da mesmice e ser levada pelas ondas do cotidiano niilista.
Um dos casos mais comuns da minha clínica são indivíduos (em sua maioria mulheres) que sentem que seus relacionamentos afetivos se esvaíram com o passar dos anos. Aquela paixão inicial foi substituída pela repetição das atividades diárias que minam o casamento e afogam a outrora empolgação. Sentem-se como estranhos em seus próprios lares e reconhecem que não há mais conexão com o parceiro de outrora. Em algum momento da relação, ocorreu o complexo de Wilson, e as perguntas mais frequentes são: o que aconteceu? de quem é a culpa?
E você, como vão suas conexões?

José Anastácio de Sousa Aguiar
Psicanalista, hipnoterapeuta e terapeuta de vidas passadas

quinta-feira, 7 de março de 2019

Crise de Definição, ou Afinal, o que é Amor?


Certa feita, atendi uma jovem senhora que, dentre outras questões, reclamava que nos seus relacionamentos como esposa, mãe, filha e funcionária, se doava muito e não entendia a razão de receber tão pouco amor em contrapartida, em especial do seu marido.
Relatou que se casou muito cedo e pouco tempo depois, vieram os filhos. A rotina do dia a dia a levou a relegar a busca do autoconhecimento a segundo plano, o que, com o passar do tempo, minava sua autoestima e amor próprio. Complementou que sempre se dedicara muito ao marido, sendo sempre compreensiva, companheira e submissa, pois "o amava muito".
Pois bem, entendo que dentre outras crises, vivemos "a crise de definição", ou seja, acatamos algo como verdadeiro, ou pelo menos conveniente, e passamos a agir de acordo com as nossas crenças, mesmo que as mesmas não tenham qualquer sustentação lógica.
Uma das questões que mais traz confusão e incompreensão é a verdadeira definição de "Amor". Alguns o definem como posse; outros, como segurança, controle, doação desmedida, sexo, etc.
A incompreensão desse simples, mas tão importante tema, leva o indivíduo a navegar por um mar de incertezas e desventuras, que, na minha prática psicanalista, vejo tende a desaguar no sofrimento, dor, e, por paradoxal que possa ser, no desamor.
E para você, o que realmente significa o Amor?

José Anastácio de Sousa Aguiar
Psicanalista, hipnoterapeuta e terapeuta de vidas passadas 

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Você como cocriador do seu destino; ou "Maria escolheu a melhor parte, a qual não lhe será tirada" - José Anastácio de Sousa Aguiar



Recentemente, tive necessidade de fazer uso de táxi. No trajeto até o meu destino, o motorista Marto (nome fictício que lanço mão para fazer referência à passagem bíblica destacada em Lucas 10:38-42) discorreu sobre alguns assuntos de seu interesse, dentre eles política, economia e violência, sempre com um ar de preocupação, descontentamento e aflição.
Ao chegar ao meu destino, realizei o pagamento da corrida e ato contínuo, ele se despediu dizendo: "Tenha um bom dia, doutor. Eu vou para a luta." Fiquei pensativo ao ver o carro distanciar-se imaginando o quão Marto criou com as suas palavras a realidade que terá que enfrentar.
Sentir a vida como uma luta ou não são os dois opostos de uma mesma moeda. Estamos imersos em um universo que antes de ser matéria, é pura energia. Os nossos pensamentos e palavras também são formas de energia, que se modulados na frequência da escassez, medo e culpa, ter-se-á como realidade concreta externa o consectário lógico do que criamos em abstrato internamente.
Por outro lado, se entendemos como funcionam as leis sutis e nos tornamos conscientes, adentraremos na sintonia de todas as possibilidades, tornando-nos cocriadores de uma realidade de paz, harmonia e serenidade interior.
Nesse diapasão, como dito pelo Mestre Jesus no versículo acima citado, estamos afadigados e ansiosos por muitas coisas, mas, em verdade, só uma é necessária, a melhor parte.
 
José Anastácio de Sousa Aguiar
Psicanalista, hipnoterapeuta e terapeuta de vidas passadas

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Crise de Definição; ou Afinal, o que é Amor?

Certa feita, atendi uma jovem senhora que, dentre outras questões, reclamava que nos seus relacionamentos como esposa, mãe, filha e funcionária, se doava muito e não entendia a razão de receber tão pouco amor em contrapartida, em especial do seu marido.
Relatou que se casou muito cedo e pouco tempo depois, vieram os filhos. A rotina do dia a dia a levou a relegar a busca do autoconhecimento a segundo plano, o que, com o passar do tempo, minava sua autoestima e amor próprio. Complementou que sempre se dedicara muito ao marido, sendo sempre compreensiva, companheira e submissa, pois "o amava muito".
Pois bem, entendo que dentre outras crises, vivemos "a crise de definição", ou seja, acatamos algo como verdadeiro, ou pelo menos conveniente, e passamos a agir de acordo com as nossas crenças, mesmo que as mesmas não tenham qualquer sustentação lógica.
Uma das questões que mais traz confusão e incompreensão é a verdadeira definição de "Amor". Alguns o definem como posse; outros, como segurança, controle, doação desmedida, sexo, etc.
A incompreensão desse simples, mas tão importante tema, leva o indivíduo a navegar por um mar de incertezas e desventuras, que, na minha prática psicanalista, vejo tende a desaguar no sofrimento, dor, e, por paradoxal que possa ser, no desamor.
E para você, o que realmente significa o Amor?

José Anastácio de Sousa Aguiar
Psicanalista, hipnoterapeuta e terapeuta de vidas passadas

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Você como cocriador do seu destino; ou "Maria escolheu a melhor parte, a qual não lhe será tirada"

Recentemente, tive necessidade de fazer uso de táxi. No trajeto até o meu destino, o motorista Marto (nome fictício que lanço mão para fazer referência à passagem bíblica destacada em Lucas 10:38-42) discorreu sobre alguns assuntos de seu interesse, dentre eles política, economia e violência, sempre com um ar de preocupação, descontentamento e aflição.
Ao chegar ao meu destino, realizei o pagamento da corrida e ato contínuo, ele se despediu dizendo: "Tenha um bom dia, doutor. Eu vou para a luta." Fiquei pensativo ao ver o carro distanciar-se imaginando o quão Marto criou com as suas palavras a realidade que terá que enfrentar.
Sentir a vida como uma luta ou não são os dois opostos de uma mesma moeda. Estamos imersos em um universo que antes de ser matéria, é pura energia. Os nossos pensamentos e palavras também são formas de energia, que se modulados na frequência da escassez, medo e culpa, ter-se-á como realidade concreta externa o consectário lógico do que criamos em abstrato internamente.
Por outro lado, se entendemos como funcionam as leis sutis e nos tornamos conscientes, adentraremos na sintonia de todas as possibilidades, tornando-nos cocriadores de uma realidade de paz, harmonia e serenidade interior.
Nesse diapasão, como dito pelo Mestre Jesus no versículo acima citado, estamos afadigados e ansiosos por muitas coisas, mas, em verdade, só uma é necessária, a melhor parte.

José Anastácio de Sousa Aguiar
Psicanalista, hipnoterapeuta e terapeuta de vidas passadas 

sábado, 23 de junho de 2018

O olho de Hórus, que tudo vê, protege e controla; ou A culpa como elemento desencadeador das neuroses e psicoses

Tenho observado na prática clínica que dois são os sentimentos presentes em todas as neuroses, independentemente das questões fáticas envolvidas: o medo e a culpa. O medo tratarei em outra crônica, deter-me-ei nessas poucas linhas a trazer alguns aspectos ligados à culpa.
A alusão de diversos pacientes, quando discorrem seus sonhos, lúcidos ou não, à existência de um (ou muitos) olho(s), levou-me a estudar melhor a matéria e perceber a intima relação entre a ocorrência recorrente dos olhos com a temática da culpa.
Ao longo da história da humanidade, o olho tem sido visto por várias culturas com simbologias diversas, mas invariavelmente passa pelo controle, que tende a desaguar na culpa. Como exemplo, cito o Olho de Hórus, que no Antigo Egito significava poder e proteção (controle).
A Igreja Católica, em vários dos seus centros de formação, em especial na Idade Média, desenhava um grande olho nos vestiários e banheiros de seus noviços, que representava o Olho de Deus, que tudo vê.
A nota de um dólar, com o desenho de um olho no pináculo de uma pirâmide e a expressão "Novus Ordos Seclorum" (Nova Ordem dos Séculos) reforça a consciência coletiva da relação simbiótica triangular: olho, controle e culpa.
Pois bem, em geral, os pacientes não compreendem a significação da simbologia de seus pensamentos e sonhos, e tendem a minimizar a importância da culpa na gênese e evolução das neuroses e psicoses, o que, ao longo do tempo, desequilibra a saúde mental do indivíduo, podendo, dependendo do caso, desaguar em um quadro psicótico de prognóstico desanimador.
Finalizo com Carl G. Jung: "Até você se tornar consciente, o inconsciente irá dirigir a sua vida e você vai chamá-lo de destino."

José Anastácio de Sousa Aguiar
Psicanalista, hipnoterapeuta e terapeuta de vidas passadas

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Tudo o que nos irrita nos outros, ou Amai os vossos inimigos

Recentemente, atendi uma paciente que chegou para a sessão muito aflita e dentre as demandas que Pietra me narrou, uma destaca-se por ser tema contumaz na clínica.
Ela expôs que havia, naquele mesmo dia, tido um conflito com uma colega de trabalho, Célia, sobre uma questão rotineira. Destacou a paciente que havia sido destratada pela colega na frente de outros e aquilo ela não aceitava em hipótese alguma. Sua irritação era evidente e não era difícil concluir que Pietra estava sendo consumida pela tristeza, raiva e ressentimentos para com a sua colega. Asseverou, após esmiuçar a questão fática, que ela tinha, no mesmo local de trabalho, uma grande amiga Ana, sobre a qual ela fez a seguinte referência: "A Ana, sim, é minha amiga, nunca tivemos nenhum tipo de conflito."
Ato contínuo, indaguei a Pietra se ela saberia me dizer qual seria a pessoa que mais poderia contribuir no processo de autoconhecimento dela, a Ana ou a Célia.
Sem pestanejar, ela respondeu: "Claro que é a Ana, doutor, ela nunca me irritou."
Ponderei com Pietra que com os amigos nos sentimos aceitos, confortáveis e acolhidos pelo ambiente aprazível que, em geral, permeia a amizade. Entretanto, são os nossos desafetos que nos proporcionam a verdadeira oportunidade de crescimento espiritual e emocional, posto que são eles que refletem para nós a parte da nossa psique que precisa ser trabalhada. Usualmente, os amigos não desempenham este papel, relegado para os desafetos, que tanto desprezamos. Em verdade, tudo o que nos incomoda nos outros é uma projeção do que não vencemos em nós mesmos.
Nesse diapasão, proponho neste texto que passemos a considerar que as pessoas que nos irritam desempenham um relevantíssimo papel na nossa evolução e, se assim é, e se consideramos verdadeiramente a necessidade da evolução emocional e espiritual, devemos ama-los e agradece-los pela valiosa contribuição.
Finalizo com Carl G. Jung: "Tudo o que nos irrita nos outros pode nos levar a uma melhor compreensão de nós mesmos."

José Anastácio de Sousa Aguiar
Psicanalista, hipnoterapeuta e terapeuta de vidas passadas

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Sombra, aliada ou inimiga, é você quem decide! ou Função reguladora dos contrários

Invariavelmente, surge na clínica psicanalista o assunto Sombra. Dentre os vários mal entendidos que permeiam a temática, destaca-se a noção de que ela tem que ser reprimida, evitada, escondida ou até mesmo anulada. Pois bem, este equívoco só potencializa as neuroses do paciente, senão vejamos.
É na Sombra que reside o potencial a ser desenvolvido pelo indivíduo. É ela quem faz o par oposto com a Persona e a evolução emocional de cada um de nós passa pela sua integralização à psique por meio do processo compensatório.
Imaginemos um caso de alguém que tenha um grave problema de baixa auto estima, gerando um complexo de inferioridade. Seu mundo interno está carente e vulnerável. Para que ele/ela possa atingir o equilíbrio das energias psíquicas, tenderá a realizar no mundo externo atos que compensem a sua dor interna. Esses atos tendem a ser comportamentos que maximizem (no mundo externo) o que lhe falta no mundo interno. Assim, quando inconsciente das suas atitudes, terá grandes chances de se dedicar ao apego, afetação, vaidade e controle, circunstâncias que criarão um ambiente artificial compensatório da sua aflição (interna), gerando uma falsa sensação de bem-estar, que será tão fugaz quanto maior for a sua agonia interior.
O sofrimento, oriundo da negação da Sombra, ao mesmo tempo que esfolia, consume, desgasta e suga a pessoa, dá a ela o azimute a ser seguido para a cura. Ele perdurará o tempo necessário ao indivíduo tomar consciência da sua Sombra, aceitá-la e integralizá-la à psique. Por óbvio, na prática, este não é um processo simples, mas necessário e fundamental para o resgate da saúde mental.
Destaco, por pertinência, as sábias palavras do grande pensador e amigo Cláudio Guterres: "No Sublime encontra a paz e a harmonia, que só não são perfeitas porque precisam ser trabalhadas na forma de espargimento de seus efeitos a iluminar os muitos grotões mal iluminados; então, volta-se ao grotesco, mas que quando lá chega, obscurecido(a) com o propósito inicial ao adentrar em densidade tão opaca, busca o equilíbrio que apenas o Sublime possibilita; então, surge a magia da criação do pensamento elevado, imortalizado em gotas decisivas de tintas nos papiros da vida."

José Anastácio de Sousa Aguiar
Psicanalista, hipnoterapeuta e terapeuta de vidas passadas