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quinta-feira, 6 de junho de 2019

Você é digno do seu tormento? ou Sofrimento, um processo ilusório e/ou curativo



Não é difícil inferir que todos os pacientes que procuram a clínica psicanalítica estão com um ou mais problemas a equacionar. A variedade e complexidade das questões é tão extensa quanto a própria natureza humana.
Pois bem, como dito acima, a expectativa do paciente é que a questão/problema que o leva à terapia seja eliminada e ele/ela possa retomar o que entende ser a sua vida normal.
Talvez um dos aspectos mais importantes a ser destacado no processo terapêutico, e que poucos chegam com essa noção, é que, em última instância, as questões que o levaram à clínica são fatores essenciais do processo de restauração do equilíbrio perdido da psiquê, não tendo natureza autônoma, nem ontológica. Ou como diz Eckhart Tolle: “Um problema só é necessário, até tornar-se desnecessário.”
Carl G. Jung nos ensina que um dos primeiros passos no processo terapêutico é a aceitação do indivíduo como ele é, em especial, os seus defeitos, o que requer uma grande dose de humildade, nem sempre fácil de obter. Somente após essa primeira fase da conscientização da sombra, pode o paciente ressignificar as suas energias, reorientando-as a seu favor.
Por mais paradoxal que possa ser, a exemplo da vida que guarda seu sentido, o sofrimento também. Faço referência a Dostoievsky: “Temo somente uma coisa, não ser digno do meu tormento.” Tornar-se digno do próprio tormento é reconhecer a sua função e mensagem, ao tempo de compreender que tanto lhe é ilusório como curador. O teu tormento, em verdade, é a tua bênção.
Concluo com a citação de Krishna para Arjuna em Bhagavad-Gita “O que é noite para todos os seres, é dia para o homem que consegue vencer a si mesmo”.

*Texto em parceria com Augusto Cláudio Ferreira Guterres Soares

José Anastácio de Sousa Aguiar
Psicanalista, hipnoterapeuta e terapeuta de vidas passadas

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Krishna e o bambu

Conta a lenda que, todos os dias, Bhagavan Krishna costumava caminhar pelos jardins e declamar a todas as plantas: Eu as amo!
Todas as plantas sentiam-se muito felizes e também se acostumaram a agradecer: Krishna, nós também te amamos!
Certo dia, entretanto, Sri Krishna, muito alarmado, adentrou naqueles jardins. Percebendo Sua aflição um bambu Lhe perguntou: Senhor, o que há de errado?
O Bhagavan replicou: Tenho um pedido muito difícil!
O bambu respondeu: Diga-me, Senhor, que, se puder, ficarei muito satisfeito em Lhe atender.
Sri Krishna, então, disse-lhe: Preciso cortá-lo.
O bambu refletiu por algum tempo e respondeu: O Senhor não tem outra escolha? Não há outra saída?
O Bhagavan redarguiu: Não, não há outra saída.
Mesmo sem compreender perfeitamente o que se passava, disse-Lhe conformadamente o bambu: Sim, Senhor. Sendo assim, entrego-me a Ti.
Sri Krishna então cortou o bambu, o lapidou e fez nele algumas profundas chagas. A cada movimento, o bambu cambaleava de dor.
Ao cabo de todo processo, o bambu percebeu então que o Bhagavan havia feito dele sua preciosa flauta. Desde esse dia, nunca mais se apartou da companhia do Senhor Bem-Aventurado.
Mesmo as Gopis, observando aquilo, sentiram-se preteridas. Percebendo que o Senhor costumava passar todo o Seu tempo em companhia daquela flauta, resolveram questionar: o Senhor está sempre com você! Conte-nos o segredo disso!
O bambu satisfeito disse-lhes: o segredo é estar vazio por dentro.