sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Crônica - O Anel de Giges ou Será que estamos mesmo preparados para ter o que desejamos? José Anastácio de Sousa Aguiar



Platão, em sua obra a República traz a lenda de Giges, que era um pastor de ovelhas na região da Lídia, atual Turquia. Certo dia ao pastorear suas ovelhas, presenciou um terremoto que abriu uma fenda na montanha. Ao aproximar-se do local, Giges verificou que havia na caverna, recém-aberta pelas forças da natureza, um cadáver de um ser maior que um ser humano, do qual nada restara, apenas um anel de ouro. Giges tomou posse do anel e logo descobre que o mesmo tinha a capacidade de torná-lo invisível, caso fosse dado uma volta no engaste do anel para dentro e torná-lo visível, caso a volta fosse dada para fora.
Consciente do poder que o anel lhe proporcionava, Giges arquitetou um plano para tomar o poder. Assim, seduziu a esposa do rei e conspirou para matá-lo. Após sangrenta batalha que ceifou centenas de vidas, Giges sai vitorioso a assume o trono de Lídia. Sempre preocupado que alguém fizesse com ele o que ele havia feito ao rei, Giges passa a exercer um governo tirano, que finda com o seu assassinato por meio de um complô palaciano.
O enfoque de Platão sobre o tema era para demonstrar que nem todos estão preparados para ter o que tanto sonham, posto que a não preparação espiritual e moral para usufruir de dons pode, na verdade, trazer mais injustiça que justiça. Assim, se algo que tanto desejamos não nos ocorre, talvez seja porque ainda não estejamos preparados para recebê-lo e usá-lo devidamente. Em outras palavras, ao invés de correr atrás das borboletas, certamente será mais efetivo, cuidar das flores do nosso jardim.
Destaco as palavras do filósofo estóico Marco Aurélio: “Tenha como inútil aquilo que algum dia possa te levar a transgredir tua fé, a perder tua honra, a odiar, a suspeitar, a amaldiçoar, a dissimular, a cobiçar o que terá que ser oculto por muros ou véus. Quem privilegia a razão, seu deus interior e o culto silencioso da virtude íntima, não se presta a espetáculo, não se lamenta, não procura a solidão e a multidão, mas viverá sem desejos e sem temor. Nisso reside o maior dos bens.”
Destaco um antigo aforismo: “A felicidade não é fruto da paz e da consecução dos desejos, mas a própria paz e a superação dos desejos”.
José Anastácio de Sousa Aguiar