sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Fábula - Gaiolas Invisíveis - Cristiane Caracas




Rui era uma graúna que vivia entre os coqueiros de uma pequena serra lá no interior do Nordeste.
Certo dia, Rui viu uma ave diferente, tinha certeza de que nunca tinha visto antes nada parecido. Uma ave linda, branca, bico rosado e que trazia no bico um papel colorido. Rui, meio tímido e ao mesmo tempo curioso, aproximou-se e perguntou:
- Que ave é você?
- Sou uma pomba, respondeu a ave, estufando o peito de orgulho.
- Uma pomba!? exclamou Rui.
 -E o que fazem as pombas?
- Sou muito importante, não sou uma pomba qualquer. Sou uma pomba correio e minhas penas são do mais puro branco, não vês?
- E daí, disse Rui. As minhas são do mais puro preto e voam iguais às suas.
- Mas você não serve ao homem, eu sim, tenho serventia, levo e trago mensagens importantes.
Rui pensou: de fato não sirvo ao homem. Saiu cabisbaixo e convicto de sua condição de inutilidade.
Pouco tempo depois, Rui, por uma distração, deixou-se capturar por uma arapuca montada por um caçador de pássaros.
E deu-se o triste destino de Rui: ficar em uma gaiola tendo que cantar todos os dias para o homem que o aprisionou.
Foi aí que ele lembrou da pomba e pensou: agora sirvo ao homem, assim como a pomba, e nem por isso me sinto melhor que as outras aves. Gostava mesmo era de cantar e voar livremente sem me preocupar em ser útil ou não a ninguém, sendo somente o que era: uma graúna.
De novo pensou na pomba e compreendeu que ela devia ser infeliz, porque embora sem gaiola era também prisioneira da vontade do homem. Ora, que diferença agora fazia ser do mais puro branco ou do mais puro preto? Ele e a pomba eram escravos de suas utilidades.
Foi então que avistou sua amiga pomba, com mais uma mensagem no bico, pronta para servir ao homem que a aprisionava, embora ela não percebesse e ainda se orgulhasse de sua vã utilidade.
Rui, mais que depressa, perguntou:
- Por que não me libertas? Não vês que estou preso?
A pomba retrucou:
- Não te liberto porque tu só és útil preso em uma gaiola. De que servirás cantando para ninguém ouvir? Não vês que te mantendo preso presto-te um grande favor, livre tu és inútil e não passas de uma graúna qualquer, preso tu és a graúna do homem e terás o privilégio de cantar para ele.
 Rui respondeu:
- Ao contrário, de que me serve um canto lindo que não pode ser ouvido por todos que passem em minha vida e que seja a expressão da minha felicidade e não o canto oprimido pelo desejo daquele que me aprisiona porque não sabe cantar assim como eu.
A pomba, ainda relutante, abriu a gaiola do amigo com seu bico e soltou Rui que pode sentir novamente a sensação de liberdade.
- Não se deixe aprisionar por gaiolas invisíveis, disse Rui, liberte o seu pensamento e seja útil primeiro a si mesma. Somos aves e temos que viver de acordo com a nossa natureza, temos asas e se as temos é porque é da nossa natureza ser livres e voar.
Naquela hora a pomba deixou cair no chão a mensagem que trazia no bico que dizia assim: somos aquilo que pensamos ser, sonhamos ser e desejamos ser, desde que nos permitamos pensar, sonhar e desejar.
Fortaleza/CE, 13 de dezembro de 2013.
Cristiane Caracas