terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Apólogo de Natal - Retalhos de Sentimentos - Cristiane Caracas



Era Natal, chegava ao orfanato Santa Cecília um baú vermelho contendo alguns brinquedos, brinquedos esquecidos, empoeirados e encardidos pelo tempo que ao se descortinar revela aquilo a que nos predestinamos.
Aqueles brinquedos haviam sido úteis. Serviram a uma criança rica e alegre que um dia se divertiu com eles. Um  deles se destacava: uma boneca de vestido de fita azul, cabelos vermelhos e olhos enormes que de tão grandes pareciam enxergar o mundo inteiro.
E foi nesse dia que Adrielle, uma criança do orfanato, linda, magrinha, cabelos cacheados, sorriso que sozinho era capaz de iluminar tudo ao seu redor, chegou de mansinho defronte ao baú e foi retirando os brinquedos de forma ansiosa, como se adivinhasse que no fundo daquele baú encontraria a sua boneca.
 Adrielle ao colocar os olhos na boneca sentiu como se ela tivesse encontrado uma metade sua perdida, um pedaço seu esquecido em algum lugar e que agora ao reencontrá-lo podia finalmente se sentir completa.
E foi assim que não existia Adrielle sem a boneca e nem a boneca sem Adrielle. Estreitaram de tal forma a relação que a boneca de olhos grandes passou a enxergar com os olhos da criança órfã. E como isso foi possível? É que aquela boneca, assim como Adrielle, conhecia bem a involuntária intimidade com a solidão do abandono.
Batizaram-na de Liz e Liz vivia assim entre as crianças do orfanato, por vezes jogada em um canto qualquer, mas nunca esquecida. Liz via tudo, ouvia tudo e com o passar do tempo e nessa simbiose de vidas pode também sentir tudo.
Liz sentiu que aquelas crianças tinham medo, um medo que se tornava ainda pior por ser desconhecido, apavorante pelo vazio do colo de mãe.
Eram noites intermináveis, solitárias, frias de sentimentos, de aconchego e de carinho, com porquês atormentantes do passado e talvez incertos do futuro. Acalantos negados, cantigas de ninar não ouvidas e o gosto amargo na boca do leite que azedou no seio.
Depender da caridade e do amor alheio era o castigo imposto àquelas crianças, como numa colcha de retalhos onde se costuram sobras de tempo, amores emprestados, carinhos divididos e sonhos não vividos. Liz assistia a tudo em silêncio, por respeito àqueles coraçõezinhos que cedo, ainda no ventre, foram machucados por aqueles que não souberam amar.
Tinha a sensação de que aquelas crianças sentiam saudades daquilo que não viveram, como se fosse possível viver vidas em outras vidas, em um paralelo frustrante daquilo que devia ter sido e aquilo que é.
O Natal se foi e Liz e as crianças tiveram que aprender, com o menino Jesus, a amar sem julgar, compreendendo que os seres possuem razões e culpas próprias que nem uma existência inteira vivida é tempo suficiente para se perdoar. Suas sentenças são proferidas por elas mesmas e, por isso, não ousam fugir à verdade. A pena é a inesquecível consciência dos atos que como correntes inquebráveis ferem os pulsos, mas latejam n’alma.
Fortaleza/CE, 24 de dezembro de 2013.
Cristiane Caracas