quarta-feira, 3 de junho de 2015

Conto - Lara, a menina de olhos de luz - Cristiane Caracas


Doce, meiga e com sorriso largo era Lara, a menina de olhos grandes curiosos. Nem bem chegou da escola encontrou, em cima da cama, um livro fininho, presente de seu pai, onde era narrada a história de um príncipe de cabelos loiros como espigas de milho e uma rosa singular e geniosa que moravam em um minúsculo planeta, lá juntinho das estrelas.
Desde aquele dia, Lara não parava de pensar na possibilidade de conhecer o céu, as constelações, a via láctea, a Lua e o Sol, enfim, tudo que habita o cosmo.
Sendo filha única, identificou-se com o principezinho em sua solidão e na busca por um amigo, imaginou que poderia juntar-se ao menino e a rosa sendo felizes no diminuto astro, afinal não precisava de muito, apenas de um amigo. Esse era, pois, o seu desejo secreto.
Dedicava horas e horas de suas tardes deitada na relva contemplando, com seus olhos grandes, todo o céu estrelado. Tinha preferência pelas noites de verão quando os pontos de luzes pareciam maiores e mais brilhantes.
Passaram os anos e a aspiração de viver perto das estrelas desapareceu por entre as tarefas e compromissos da juventude que sufocam os desejos infantis. Lara já não era mais criança, tinha consciência do impossível. Numa linda manhã ensolarada de verão, entretanto, passeava tranquilamente na praia e esbarrou, trazida pelas ondas de espumas esbranquiçadas, com uma estrela do mar. Apressadamente, com mãos trêmulas, apossou-se daquela estrela que a fez lembrar o velado desejo infantil.

Recordou-se do principezinho e da rosa e atinou que o impossível é uma coisa ou lugar que ninguém conhece e nunca foi lá e assim, não se sabendo a coisa ou lugar, nem onde, quando e como encontrá-lo, ele pode ser qualquer coisa ou coisa alguma e até ser um lugar comum. Aquela estrela era a prova de que o inverossímil acontece quando o acaso se distraí e abre as portas para a utopia. É num desses momentos de descuido que as estrelas aproveitam para visitar outro lugar, aquele que alguém um dia chamou de impossível.
Podia sim viver no impossível, podia sim ser amiga do principezinho e da rosa, afinal o irreal só existe para quem não acredita na força do desejo, capaz até de precipitar estrelas no mar ou permitir que a criança que habita em nós dite as regras de nossos destinos.
E daquele dia em diante, Lara percebeu um certo brilho que reluzia de seus olhos sempre que contemplava o firmamento. Lara não pode ir às estrelas, mas as estrelas habitariam nela para sempre em forma de luz no espelho da alma, sinal de que nada é impossível. E foi assim que Lara passou a ser a menina dos olhos de luz, onde as estrelas, aproveitando um cochilo do acaso, vieram fazer morada.
Cristiane Caracas
3/6/2015