quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Conto - A fada do amor - Cristiane Caracas


Vivia em um recanto quase esquecido uma serena e jovem pastora que conduzia o seu rebanho de ovelhas com paz, rastro de sua caminhada.
Havia naquela moça de andar calmo, uma timidez recatada e uma certa cumplicidade com a natureza, visível a qualquer um. Cabelos longos e negros, olhar distante, meiguice percebida ainda que escondida detrás de tanta reserva. Nathalia era o nome dela e delicada podia ser seu sobrenome.
Pois bem. Aquela doce pastorinha guardava um segredo. Em noites de luz cheia, Nathalia metamorfoseava-se em uma linda fada e no mundo dos seres encantados ela era Naty: a fada do amor. Os cabelos tornavam-se ainda mais longos e negros, suas costas ganhavam delineadas asas azuis e seus olhos pareciam duas enormes turmalinas porque o olhar do amor é assim: tudo vê, mas só enxerga o que quer.
Certa noite de luar, como de costume, Naty passeava entre as colinas sempre em busca de corações apaixonados, ouviu um sussurro que vinha do firmamento. De mansinho, aproximou-se do som que toava ao mesmo tempo com angústia e alívio, difícil mesmo descrever aquele paradoxo.
Deparou-se com a seguinte cena: uma bela mulher, na beira do abismo do desespero, chorava compulsivamente a perda de um amor, suas lágrimas eram tantas que o rio da desilusão, esculpido em uma fenda do abismo, transbordava sangrando as dores daquela mulher. A fada paralisou diante de tanto desespero. Não estava acostumada com tudo aquilo, afinal era a fada do amor, lidava com sorrisos, paixões, corações acelerados, enfim, com o que há de melhor na humanidade.

Ouviu passos na escuridão, apressadamente, com um certo medo é bem verdade, virou-se para deparar-se com um duende. Ainda trêmula, indagou dele quem era e o que fazia ali que respondeu sem qualquer emoção que se chamava desprezo e que era a causa do desespero da mulher.
Compadecida pela dor da humana interpelou se poderia fazer algo em favor. O duende, em desdenho, mostrou um espelho de duas faces: em uma delas refletia-se o amor, na outra a rejeição.  Você não passa de uma de minhas faces, refutou o duende, não se julgue tão importante, no fundo somos um só.
De início Naty nada compreendeu daquela conversa esquisita, mas se preocupava com o destino da mulher na beira do abismo. O duende, percebendo a inquietação, cuidou em desestabilizar a fada.
Você nada pode fazer, minha doce e inocente fada. Cabe a ela, e somente a ela, desapegar-se de mim. Não esqueça que o que nos faz sofrer não é o amor e sim a multifacetária dor da rejeição, a qual nos apegamos como a uma ponte para a desesperança.
Tomada de coragem, resolveu propor ao duende um acordo: se somos faces distintas de nós mesmos, abro mão de você e já pode ir embora O duende se riu em gargalhadas e logo revidou:  isso não depende de você, depende dela. Não se apercebe que só a ela cabe alimentar o amor ou o ódio? Não atinas que no caso estou muito mais forte do que tu, frágil amor?
O amor ajoelhou-se diante da mulher sussurrou em seu ouvido mudo de ódio como um sopro de esperança embalada pela humildade, porque não havia muito tempo. O abismo se incorporava de forma tal à mulher que já não se podia perceber onde um começava e onde o outro terminava e era a partir daí que mudava de nome e atendia por depressão.
Não te reconheces, mulher? Não sabes do teu valor? Não será você mais importante do que qualquer outro que idealizas? És preciosa aos olhos do amor maior, o Deus incondicional. Não te deixes aprisionar pelo duende, sejas forte como o bambu que enverga mas não quebra porque conhece a sua maior virtude: a fortaleza.
As águas do rio da desilusão baixaram, o coração sossegou o abismo do desespero já não parecia tão tenebroso, fez- se luz onde dantes era treva. A mulher levantou-se, sacudiu a poeira, trançou os cabelos como em um sinal de recomeço e simplesmente saiu, deixando o desalento a cargo do duende. Compreendeu que como tranças que prendem os cabelos, é preciso aprender a trançar as tristezas e dores do coração de modo a não permitir que invadam a alma.
Quanta à Naty, a fada, enfrentou talvez o seu maior desafio porque lutou com uma de suas faces até então desconhecida. Deixou aquele lugar, não estava sozinha, seguia agora de mãos dadas com o amor próprio, outro rosto seu, outrora esquecido, agora liberto pelo maior duelo do coração travado que foi entre o amor e a rejeição.
Cristiane Caracas
14/10/2015